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domingo, 26 de fevereiro de 2012

Atraso no desenvolvimento da fala - nas palavras de uma especialista

A Dra. Elisabete Giusti é fonoaudióloga em São Paulo, especialista em linguagem infantil formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Doutora em Linguística também pela Universidade de São Paulo. Entre outras coisas, ela mantém um site maravilhoso, cheio de informações sobre aquisição e desenvolvimento da linguagem e atraso no desenvolvimento da fala, que pode ser acessado aqui. 

Fiquei muito feliz quando a Dra. Elisabete aceitou o meu convite para compartilhar um pouco de sua rica experiência com os leitores do blog. O post que publiquei em 2011 sobre atraso no desenvolvimento da fala é o mais lido de ‘Filhos Bilíngues’, portanto o assunto é de interesse para muitas famílias. A meu ver a mensagem mais importante para os pais aqui é que bilinguismo em si não causa atraso no desenvolvimento da fala.  

Abaixo o excelente texto escrito pela Dra. Elisabete para os leitores de ‘Filhos Bilíngues’.   


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Atraso no desenvolvimento da linguagem oral e bilinguismo
Por Elisabete Giusti

Muitas famílias vivenciam a experiência de serem bilíngues. Alguns autores até defendem a idéia de que hoje em dia, o bilinguismo não seja mais uma escolha da família, mas sim uma necessidade. Com a globalização é muito comum casais de diferentes nacionalidades constituírem uma família e quando chega um bebê, surgem algumas dúvidas, como por exemplo, que língua devemos falar com ele? A língua do papai, da mamãe ou apenas a língua do país de residência? Ou todas as línguas? Mas isso não irá confundí-lo?

Outra dúvida bastante frequente é: o bilinguismo não irá causar um atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem? Muitos pais até iniciam o ensino bilíngue, mas no primeiro sinal de “confusão” ou até mesmo “lentidão” no desenvolvimento da fala, cessam e passam a falar a mesma língua ensinada na escola, por exemplo.

Sobre o atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem, existem vários fatores que podem desencadeá-lo, como por exemplo, problemas auditivos (perdas auditivas), transtornos globais no desenvolvimento (quando a criança apresenta, além da dificuldade na fala, outras dificuldades, como pobre coordenação motora, dificuldade para resolver problemas práticos, não sabe brincar adequadamente, não compreende bem as instruções ou situações do dia-a-dia, não interage adequadamente, etc.). Problemas neurológicos e/ou genéticos também podem causar um atraso no desenvolvimento da fala. Além das causas orgânicas, existem também as causas ambientais como, por exemplo, a falta de estímulos adequados.

Existe também uma condição que pode justificar o atraso na fala, um quadro comum e que afeta muitas crianças: o Distúrbio Específico de Linguagem (Specific Language Impairment, SLI). Nestes casos, a criança é aparentemente normal, não possui nenhum problema, já realizou exames com resultados normais, no entanto, ela não consegue desenvolver adequadamente a linguagem oral. Atualmente acredita-se que o Distúrbio Específico de Linguagem ocorre devido a um funcionamento alterado em áreas responsáveis pelo processamento da linguagem no cérebro, é um desvio funcional e mesmo os exames mais convencionais para o estudo do cérebro como ressonância magnética ou tomografia, podem não detectar essas alterações.

De uma forma geral, crianças com Distúrbio Específico de Linguagem podem apresentar: atraso no aparecimento das primeiras palavras, dificuldade para combinar as palavras para formar frases, dificuldade na produção dos sons da fala (fala de difícil compreensão, com muitas trocas e omissões dos sons), dificuldade para aprender novas palavras (vocabulário restrito), dificuldade para relatar fatos, dificuldade para aprender as regras gramaticais, dificuldade para compreender piadas, duplo-sentido, linguagem figurada, dificuldade para contar uma história. Pode acontecer de outras pessoas da família ter dificuldades semelhantes.

Especificamente sobre o bilinguismo não existem evidências científicas que confirmem que seja uma causa de atraso no desenvolvimento da linguagem. O que pode acontecer é que a criança possui uma predisposição para apresentar um transtorno de linguagem (um Distúrbio Específico, por exemplo) e por isso, aparecem várias dificuldades, que podem ser erroneamente relacionadas ao bilinguismo. 

Crianças com transtornos específicos no desenvolvimento da linguagem apresentarão dificuldades linguísticas independentemente de quantas e de quais línguas são faladas em casa ou na escola.

Um outro aspecto que também é importante é que para aprender uma língua, a criança precisa de estímulos, de modelos e de um ambiente linguisticamente rico. Os pais devem conversar bastante e naturalmente com seus filhos, devem valorizar suas iniciativas de comunicação, devem ensinar novas palavras, devem brincar, ler muitas histórias, cantar, ver filmes, enfim devem valorizar a comunicação de uma forma ampla e prazerosa.

Se houver ansiedade, cobrança excessiva, insegurança na relação dos pais com a criança, isso poderá desencadear algumas dificuldades, inclusive um atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem. O aprendizado de uma língua também deve fazer sentido para a criança, ou seja, aprender uma língua não é apenas conhecer palavras, frases ou “falar como o papai ou a mamãe”.  Uma língua deve ser ensinada com todos os seus valores e cultura. Deve ser uma ferramenta para novas descobertas, trocas e vivências significativas.

“A principal ferramenta que a criança precisa para adquirir a linguagem é VOCÊ!”  (K. Apel, PhD, First Three Years)

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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Multiculturalismo: a experiência de quem teve uma criação bilíngue

Através da Andreia Moroni (vide post A experiência de voltar a morar no Brasil) conheci a paulista Daniela Damiati, que gentilmente aceitou meu convite para escrever um relato para Filhos Bilíngues sobre sua interessante experiência linguística e cultural. O texto segue abaixo, e provavelmente vai proporcionar uma luz a muitos pais criando filhos bilíngues pelo mundo afora. 

Obrigada, Daniela, por compartilhar a sua história.

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Olá!

Eu sou a Daniela e vim aqui contar minha história para vocês. Falo não da perspectiva dos pais ou dos estudiosos do bilinguismo, mas sim do ponto de vista de quem teve uma criação bilíngüe.

Quando eu tinha dois anos, meu pai ganhou uma bolsa de estudos para fazer seu doutorado nos Estados Unidos. De imediato, nos mudamos para lá, onde ficamos durante cinco anos.

Já em terras norte-americanas, meus pais falavam entre si e comigo somente o português. Dessa maneira, nunca perdi o contato com minha língua materna. No entanto, logo comecei a ir à escolinha, onde aprendi a falar o inglês com bastante fluência.

Em pouco tempo, eu já falava e compreendia bem as duas línguas, mas teve início uma situação peculiar: meus pais falavam comigo em português, mas eu preferia responder quase sempre em inglês. Minha mãe relata que isto, inclusive, ajudou-a no aprendizado do inglês, já que ela não tinha visto de trabalho e ficava muito tempo em casa, sem contato próximo com falantes nativos.

Eu também costumava corrigir a pronuncia do meu pai, pois notava diferenças entre a fala dele (com sotaque) e a fala de um americano.

Lembro que quando meus pais se juntavam a seus amigos brasileiros, no caso de alguma confraternização, eu tinha dificuldades para entender o que falavam, pois conversavam muito rápido, mas eu gostava de escutá-los. As músicas brasileiras também estavam sempre presentes em nosso cotidiano, o que foi muito importante para que eu criasse um vinculo afetivo com a língua.

Este período da infância, fora do país, foi intenso, pois estudei numa escola com crianças de várias partes do mundo, filhos também de universitários estrangeiros que moravam nos Estados Unidos. Como aprendi o inglês muito cedo, me integrava muito bem com as crianças norte-americanas, pois falávamos o mesmo nível de inglês. Ao mesmo tempo, interagia bem com meninos e meninas de outros países que estavam aprendendo a língua. Essa escola era interessante porque todos os alunos tinham aulas regulares, mas as crianças estrangeiras, recém-chegadas ao colégio, recebiam reforço para aprender o inglês de modo mais rápido, para não perderem o conteúdo das aulas. Era um ambiente muito rico, com crianças das mais diversas etnias, religiões e continentes, o que tornava a diversidade uma parte trivial do nosso dia-a-dia.

Os cinco anos que passei nos Estados Unidos foram muito bons. Saí de lá alfabetizada em inglês, com uma fluência enorme na língua, mas sem nunca perder o vinculo com a minha língua materna, o português.

Ao retornarmos ao Brasil, meu pai queria falar comigo em inglês, visando manter nossa fluência, mas a iniciativa não me parecia natural, já que, até então, ele sempre havia falado comigo em português.  Então recusei a situação e passei a responder a ele em português também.

No interior de São Paulo, onde voltamos a morar assim que chegamos ao Brasil, era difícil encontrar alguém, naquela época (meados dos anos 1980), que tivesse fluência em outra língua. Nesse sentido, uma criança que falava inglês fluente e o português de modo razoável, mas com sotaque, era um grande chamativo. Todos queriam que eu dissesse coisas em inglês, mas me incomodava ser o centro das atenções. Nesse sentido, preferi me dedicar a aperfeiçoar o português o máximo que conseguisse.

Em pouco tempo já não tinha mais dificuldade para falar ou escrever em português e perdi até mesmo o sotaque do inglês. Meu único choque ao retornar ao Brasil foi com a escola. Como ela era particular, havia quase que uma unanimidade de alunos brancos, o que contrastava muito com a diversidade da minha escola anterior. Foi aí que entendi o que significava o preconceito.

Nessa escola tinha aulas semanais de inglês, mas tudo era muito básico, o que não me ajudava a manter o inglês adquirido. No entanto, tendo em vista a larga influência cultural americana, por meio de músicas, filmes e séries de TV, consegui manter o contato com a língua e nunca tive dificuldades com ela. Muito pelo contrário: mesmo hoje, passados mais de 20 anos desta experiência, eu ainda tenho fluência ao comunicar-me em inglês e sempre fui bem nas vezes em que fiz os exames de proficiência da língua inglesa.

Como esta experiência vivida ao longo da infância despertou minha atenção para outras culturas, durante adolescência quis fazer um novo intercâmbio cultural. Acabei optando por ir para a Bélgica, um país multicultural com três línguas oficiais, onde morei durante um ano. Lá, fiquei hospedada na região de Flandres e aprendi mais um idioma, o flamengo, que nada mais é do que o holandês com o sotaque e expressões típicas belgas. Certamente o fato de já ser fluente no inglês e português, ajudou-me muitíssimo no aprendizado de uma terceira língua, então fui uma das estudantes brasileiras que aprendeu mais rápido e com mais facilidade o holandês. Apesar de ter perdido um pouco do vocabulário, continuo me comunicando muito bem no holandês, mesmo agora, quando já se passaram 14 anos desta experiência.

Acredito também que não foi coincidência que, ao retornar ao Brasil, tenha escolhido a área de comunicação como opção no vestibular. Nos meus estudos na universidade, lembro de um texto que falava sobre como nossa visão de mundo é pautada pela língua que falamos. Isto me fez lembrar do que eu já tinha percebido intuitivamente nas minhas experiências fora do país: línguas anglo-saxãs como holandês e o inglês têm muitas palavras para exprimir situações e detalhar objetos. E não é à toa que a cultura deles é bastante organizada. Línguas latinas como o português, por sua vez, apresentam mais palavras que exprimem sentimentos. E, em regra, somos conhecidos por sermos muito emotivos. Claro que estas são generalizações, mas, de fato, sinto que quanto mais línguas você aprende, mais você amplia sua visão de mundo, bem como estimula a sensibilidade.

E por isto acredito que todo filho(a) deve ser estimulado a aprender a língua-mãe de seus respectivos pais. Isto só fará dele um ser humano com uma visão mais rica do mundo e das diversas culturas na qual ele está inserido.


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sábado, 28 de janeiro de 2012

Pesquisa sobre bilinguismo

Ana Paula Passos Jakubów, formada em Letras Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e mestranda em Linguística na área de Aquisição de Linguagem (Bilinguismo) pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, está fazendo uma pesquisa sobre bilinguismo e busca para participar de sua pesquisa três crianças bilíngues com até 4 anos de idade que tenham um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro falante nativo de inglês. No texto abaixo, Ana Paula fala sobre o seu projeto. Você gostaria de participar? Então entre em contato com ela pelo email anapassos88@hotmail.com.

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A globalização permite maior circulação de informações e pessoas pelo mundo. Através desse trânsito para diferentes áreas geográficas, pessoas de diferentes nacionalidades podem se conhecer e manter relacionamentos. Dessa forma, o nascimento de crianças que se tornam bilíngues – e até mesmo multilíngues – tem sido cada vez mais comum.

Desde o início do século XX, a aquisição bilíngue vem despertando o interesse de estudiosos. Um dos primeiros trabalhos é o do linguista francês Ronjat (RONJAT, J. Le développement du langage observe chez un enfant bilingue. Paris: Champion, 1913) que observou seu filho adquirindo duas línguas simultaneamente e constatou progresso na aquisição das suas línguas com poucos indícios de confusão entre as mesmas. Ao observar, também, sua própria filha adquirindo duas línguas simultaneamente, Leopold (LEOPOLD, W. Speech development of a bilingual child. A linguist’s record. New York: AMS Press, 1970. Original work published 1939 – 1949) constatou que a criança passou por uma fase de “confusão”, portanto a criança estava encarando o processo de aquisição de duas línguas como um processo único.
        
Levando em consideração as idéias acima e outras hipóteses mais recentes sobre aquisição bilíngue, conduzo uma pesquisa no meu curso de mestrado que pretende responder, em termos gerais, às seguintes questões:
  • Definir em que momento dois sistemas linguísticos são tomados como distintos na aquisição bilíngue;
  • Verificar a predominância de uma língua sobre a outra, com base no montante de input linguístico, a partir de estudos de caso específicos.
Sou esposa de polonês e meus filhos, provavelmente, serão multilíngues! Além de ser uma questão pessoal, resolvi levar para o lado científico e transformar esse assunto em objeto teórico de estudo para tentar compreender melhor esse processo de aquisição de duas ou mais línguas simultaneamente. A pesquisa com linguagem, entretanto, não pode ser conduzida exclusivamente no ambiente universitário. É necessário estar em contato direto com crianças que vivenciam esse processo, poder ter acesso ao seu comportamento linguístico cotidiano para que possamos acompanhar o desenvolvimento linguístico das crianças. Como futura mãe de crianças multilíngues e pesquisadora em aquisição de linguagem, gostaria de saber se alguém poderia contribuir para essa pesquisa com gravações de falas de seus filhos - que NUNCA terão os nomes divulgados por questões éticas do meio científico - para que possamos enriquecer ainda mais a literatura sobre aquisição de linguagem e educar nossos filhos da maneira mais apropriada - em questões linguísticas, é claro - sem medo de confundí-los. Para desenvolver essa pesquisa, preciso de 3 crianças bilíngues com até 4 anos de idade que tenham um dos pais falante nativo de português brasileiro e outro falante nativo de inglês (pode ser inglês americano, britânico, australiano, canadense, etc). O próposito é perceber quando e como se dá esse processo de "confusão" que assusta tantos pais na hora de oferecer uma educação bilíngue aos filhos. Assim, precisarei de gravações de falas espontâneas dessas crianças em situações naturais de interação com família e amigos. As gravações seriam de 30 minutos, uma vez por semana. Interessados em participar da pesquisa, por favor, entrem em contato através do e-mail anapassos88@hotmail.com.



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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Autora convidada: Madalena Cruz-Ferreira

No post ‘Devemos usar apenas uma língua com crianças que apresentam atraso no desenvolvimento da fala?’ recomendo a leitura de um artigo escrito pela especialista Madalena Cruz-Ferreira, PhD em Linguística e Fonética pela Universidade de Manchester.

Após a publicação desse post tive a enorme honra de ser contatada por Madalena, que é portuguesa, e de ter ‘Filhos Bilíngues’ adicionado à lista de leitura do seu blog, ‘Being Multilingual’. Madalena se dedica ao multilinguismo, adulto e infantil, há mais de 35 anos. É casada com um sueco, vive em Singapura, e é mãe de três filhos trilíngues. É autora de muitos livros de sucesso sobre multilinguismo, inclusive um especificamente sobre aquisição da língua portuguesa.  

Sou fã de carteirinha de Madalena há muito tempo, mas nunca havia lido um livro ou artigo sobre multilinguismo escrito por ela em português. Para minha grande alegria, e para o enorme benefício dos leitores, Madalena gentilmente aceitou meu convite para escrever um artigo em nossa querida língua materna para publicação em ‘Filhos Bilíngues’. O excelente texto segue abaixo. Aproveitem, pois ter a oportunidade de ler algo sobre o tema escrito em português por uma especialista de nível internacional é coisa rara. 


Preocupações multilíngues – ou talvez não

Madalena Cruz-Ferreira

Muitas das perguntas que recebo de pais e educadores recém-chegados ao multilingualismo refletem as preocupações que eu própria tive, como mãe novata dos primeiros meninos multilíngues na minha família e na do meu marido. Por exemplo: Que língua(s) devo usar com os meus filhos, e como? (Resposta: a língua ou as línguas que sejam naturais para si, como forem naturais para si.) Usar várias línguas com uma criança pode afetar, ou atrasar, o seu desenvolvimento linguístico e cognitivo? (Resposta, bem concisa: Não.)

Outras perguntas têm a ver com aquisição da linguagem, isto é, com o desenvolvimento típico de qualquer criança independentemente do número de línguas usadas na família ou na comunidade. Por exemplo: A minha filha começou a tentar juntar palavras para dizer frases e começou a gaguejar, será por nós falarmos duas línguas com ela? (Resposta: construir frases fluentes implica muita ginástica de músculos ligados à fala, e muita ginástica intelectual. Coordenar tudo isso requer treino, e treino prolongado. Meninos monolingues também gaguejam nesta fase de aprendizagem, e todos os meninos também tropeçam e caem quando aprendem a andar e querem correr.) 

Todas as perguntas, no entanto, refletem um sentimento de diferença, e principalmente de exceção: nós, multilíngues, somos diferentes deles, monolingues, e eles são a norma. O que resulta em pensar que meninos multilíngues fazem ou não fazem certas coisas porque são multilíngues. Eu gosto sempre de questionar perguntas, para ver se elas têm razão de ser, e uma questão é certa: a convicção de que o multilingualismo causa, ou afeta, ou piora, ou melhora, ou tem alguma coisa a ver com o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento geral infantil é apenas isso, uma convicção. Não existe fundamento científico para afirmar que uma quantidade, número de línguas, tenha influência numa qualidade, aquisição da linguagem.

O motivo da arbitrariedade de afirmações deste tipo é simples: ser multilíngue, ou monolingue, não é mais nem menos “normal” do que o inverso, porque desde sempre os seres humanos usaram uma ou mais línguas. As línguas, e o número de línguas de que necessitamos, são instrumentos que nos identificam com a comunidade em que nascemos e vivemos, e que servem os nossos objetivos e as nossas práticas culturais. O multilingualismo não é recente nem estranho: o que é recente e estranho é a convicção de que ele é recente e estranho. Fala-se de CLD children (culturally and linguistically diverse children) ‘meninos culturalmente e linguisticamente diversos’, como se meninos monolingues fossem culturalmente e linguisticamente homogéneos; e fala-se de meninos que usam heritage languages, ‘línguas de herança’, como se meninos monolingues não tivessem herança linguística. Os multilíngues não são responsáveis pelos termos que pesquisadores e falantes monolingues gostam de colar neles, e que não têm significado real.

Penso que será bom mudarmos as nossas convicções. Primeiro, porque elas não refletem os factos; e segundo, porque as preocupações que derivam delas se entranham no nosso contato com os nossos meninos, e podem vir a afetá-los a eles também: eles vão crescer pensando que são “diferentes”, sem entender bem como nem porquê. Isto é tanto mais irrelevante que ser multilíngue é de facto a regra. Existe mais gente no mundo que usa mais de uma língua no dia a dia do que gente que usa uma só língua. Não faz sentido caracterizar uma maioria como especial ou como exceção, e não faz sentido querer observar multilíngues com olhos de monolingue – por que não o inverso, nesse caso? Um monolingue também parece bem estranho, visto com olhos de multilíngue. Não é difícil encontrar diferenças e estranhezas: basta querer encontrá-las, porque somos todos diferentes. Por isso eu acho que é mais interessante procurar o que temos em comum: todos nós usamos o repertório linguístico que temos, uma língua ou mais, de acordo com o que é relevante na nossa vida.

Para voltar a perguntas frequentes que recebo, e cujas respostas se ligam a típicos comportamentos multilíngues, os multilíngues usam cada uma das suas línguas de forma diferente, porque é para isso que precisam de línguas diferentes. Isto significa que cada língua naturalmente se desenvolve de forma diferente também: uma para falar com a mãe, outra com o pai, outra com os professores e amigos na escola, ou entre irmãos – é isto mesmo que se passa na minha família, por exemplo. E as chamadas “misturas de línguas” são típicas tanto do multilingualismo como do monolingualismo. Quando falamos de robôs, ou de tufões, ou da internet, estamos a misturar línguas. Estas palavras não são portuguesas, e só ficaram portuguesas porque falantes do português assim decidiram, pela força do uso, e necessariamente por primeiro uso de um multilíngue, que as conhecia de outra língua. São as convenções humanas que fazem os usos: as palavras não pertencem às línguas, pertencem às pessoas que as usam. Uma criança que diz Quero o meu teddy-bear! está a fazer o mesmo, usando as palavras que achou úteis na sua experiência linguística total, para exprimir o que é importante para ela.

Este último exemplo ressalta uma nota final que queria deixar aqui: muitas vezes notamos o que os nossos meninos multilíngues não fazem, e descuramos aquilo que eles fazem. Usar palavras de línguas diferentes significa usar línguas diferentes, e assim fazer o que todos os multilíngues fazem. Meninos, tal como todos nós, aprendem fazendo.


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Mais informações sobre o trabalho de Madalena Cruz-Ferreira e sobre como entrar em contato com ela podem ser encontradas no seu blog ou em sua página acadêmica, ‘Being Multilingual’.


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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Mais comentários interessantes

Como já mencionei antes, muitos comentários interessantes são postados aqui no blog, os quais nem sempre chegam ao conhecimento de todos os leitores, por aparecerem nas páginas dos posts a que se referem, muitas vezes publicados há algum tempo. Estou portanto reproduzindo alguns desses comentários em novos posts, para que essa troca de experiências se torne ainda mais enriquecedora para todos os seguidores de ‘Filhos bilíngues’. 

Hoje continuo esse exercício reproduzindo aqui alguns dos comentários feitos aos posts ‘Criando filhos bilingues’, ‘Quando um dos pais não fala português’ e ‘A Torre de Babel é aqui’, publicados em outubro e novembro de 2010.

 



Ana Tereza Merger comentou em 13 de dezembro de 2010:
Sou brasileira e o meu marido é francês. Desde o começo do casamento deixamos bem claro para amigos e principalmente parentes que eu falaria em português com as crianças sempre, em qualquer ocasião, onde quer que fosse. Nicolas concordou e deu força. Hoje, Chloé entende tudo nas duas línguas, mas me responde na maioria das vezes em francês. Quando os meus pais estão por aqui ela não tem nenhuma dificuldade de se comunicar nas duas línguas. Estou fazendo o mesmo com o nosso segundo filho. A herança de poder falar fluentemente duas línguas é uma riqueza da qual não quis abrir mão para os meus filhos, mesmo que não seja tão evidente quanto possa parecer. Um grande abraço.

Claudia Storvik comentou em 13 de dezembro de 2010:
Olá Ana Tereza. Conheço muitas crianças que, como sua filha, respondem na língua do país de residência quando falamos com elas em português, mas os pais devem perseverar, exatamente como você está fazendo. Espero que o blog lhe dê algumas idéias úteis. Ensinar português ao segundo (e ao terceiro, quarto) filho é bem mais complicado que ao primeiro, por razões óbvias. É importante estar consciente disso e fazer um esforço extra. Um abraço, Claudia
[Nota: Os seguintes posts tratam de bilinguismo passivo e ordem de nascimento e multilinguismo: 'Bilinguismo passivo – Quando a criança se recusa a falar português' e 'O segundo filho tem menos chance de se tornar bilíngue?']

Fernanda comentou em 20 de janeiro de 2011:
Olá Claudia, te achei hoje na internet...são três horas da manhã e perdi o sono pensando: o que estou fazendo de errado??? Tenho dois filhos, um de 2 anos 9 meses e um de quatro meses e meio. Moro na Irlanda e sou casada com um irlandês. Em casa falamos só inglês porque meu marido não é fluente em português. Desde que meu primeiro filho nasceu eu me comunico com ele em português. Leio histórias para ele em português, coloco músicas brasileiras, enfim, minha comunicação com ele é totalmente na minha língua nativa, até porque não me sinto confortável falando inglês com ele. Pensei que ele fosse falar o português fluentemente comigo, já que fico com ele o dia todo e só me comunico com ele em português. Mas ele me surpreendeu ... ele fala o tempo todo inglês, inclusive comigo ... e eu me sinto um pouco triste ... é como se eu estivesse falhando ... não sei explicar esse sentimento. Como sei que ainda dá tempo de fazer alguma coisa - afinal, ele ainda não tem três anos - gostaria de saber se podia me aconselhar, e até indicar leituras para eu me sentir mais confiante. Quero, realmente, que ele fale minha língua e seja capaz de se expressar perfeitamente nas duas línguas. Muito obrigada. Abraços, Fernanda

Claudia Storvik comentou  em 28 de janeiro de 2011:
Olá, Fernanda. Nào se preocupe, você ainda tem tempo. Assumo que seu marido apoie a educação bilíngue de seus filhos. Você diz que fala português com eles todo o tempo, e isso é exatamente o que você tem que fazer; mas o mais velho obviamente já entendeu que não ‘precisa’ falar português com você. Sugiro que leia com atenção o post ‘Crianças bilíngues e o valor das línguas’ - seu filho parece precisar de motivação para falar português. Você não menciona isso, mas imagino que ele entenda português perfeitamente. Isso significa que ele já é bilíngue, mas é um bilíngue passivo, ou seja, apenas entende e não fala uma das línguas. É muito importante que você continue falando português com seus filhos, mesmo que o mais velho responda em inglês. E tente criar situações em que ele precise falar português. A estratégia que tenho certeza lhe ajudaria neste momento seria passar uma temporada no Brasil (não me leve a mal, mas ir sem o marido seria melhor ainda, pois as crianças iriam ter contato apenas com português durante toda a estadia) – e quanto mais tempo você puder ficar lá melhor. Como o problema do seu filho é falar, ele precisa de interação humana, e principalmente de situações em que haja necessidade de falar português. O post em questão sugere outras estratégias que você pode tentar caso não seja possível passar uma temporada no Brasil. Boa sorte! Claudia

Eros comentou em 28 de janeiro de 2011:
Olá Claudia, somos brasileiros e moramos no Brasil. Sou pai de uma tampinha linda de 2 anos, e gostaria de começar a conversar somente em inglês com ela. Porém, no início desse post você fez referência a especialistas que não aconselham isso. Você poderia me dar mais detalhes sobre esta informação? Obrigado, Eros

Claudia Storvik comentou em 28 de janeiro de 2011 :
Olá, Eros. Posso sim. O que o post diz é que alguns especialistas acham que tal conduta pode afetar de forma negativa o relacionamento futuro com a criança. Essa sugestão é feita dentro do contexto de famílias morando fora de seu país de origem. O abandono da língua materna pelos pais é desencorajado por questões de identidade da criança e preservação das relações familiares, bem como outros aspectos que também não se aplicam ao seu caso. Muitas famílias fazem o que vocês estão planejando fazer. A tarefa não é nada fácil, mas se você for realista e perseverar, não vejo por que não possa dar certo. O artigo neste link provavelmente vai ser útil para você. Um abraço, Claudia

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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Devemos usar apenas uma língua com crianças que apresentam atraso no desenvolvimento da fala?

No post 'Bilinguismo e atraso no desenvolvimento da fala' menciono que quando crianças que estão crescendo num ambiente bilíngue demonstram algum tipo de atraso ou distúrbio da fala, professores e até mesmo profissionais de saúde muitas vezes assumem que o problema é causado pelo bilinguismo e recomendam que a família passe a falar com a criança apenas na língua do país de residência.



A especialista Madalena Cruz-Ferreira, PhD em Linguística e Fonética pela Universidade de Manchester, publicou recentemente um excelente artigo entitulado “Recommending Monolingualism to Multilinguals – Why, and Why Not“ (Recomendar monolinguismo a multilíngues – Por que, e por que não), onde ela discute em detalhe essa recomendação às vezes feita, em casos de distúrbios clínicos da fala de crianças bilíngues ou multilíngues, de “mudar para um só idioma”. No texto, Madalena oferece reflexões sobre a viabilidade prática deste conselho, as razões que podem motivá-lo, e se tais razões estão de acordo com o que especialistas sabem sobre multilinguismo e distúrbios fonoaudiológicos.

A autora conclui seu artigo dizendo que a mensagem que ela quer transmitir é que o multilinguismo não é doença nem causa de distúrbios. Em caso de suspeita ou confirmação de um distúrbio clínico em crianças bilíngues ou multilíngues, a mudança para uma única língua não vai resolver o transtorno – vai simplesmente resultar numa criança monolíngue com distúrbio.

O artigo pode ser lido na íntegra aqui.


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terça-feira, 31 de maio de 2011

Bilinguismo produz cérebros fortes

Numa entrevista para o jornal The New York Times publicada ontem, a neurocientista Ellen Bialystok, da Universidade de York em Toronto, que há quase 40 anos estuda a relação entre bilinguismo e desenvolvimento do cérebro, confirma que, entre outros benefícios, o uso regular de duas línguas parece retardar o aparecimento dos sintomas da doença de Alzheimer.



A cientista fez dois estudos. No primeiro, publicado em 2004, verificou que, ao envelhecerem, pessoas bilíngues tinham um funcionamento cognitivo melhor do que monolíngues. O segundo estudo analisou os prontuários de 400 pacientes de Alzheimer. Em média, os bilíngues apresentaram sintomas de Alzheimer cinco ou seis anos mais tarde do que monolíngues, o que não significa que os bilíngues não têm Alzheimer, mas sim que quando a doença está em seus cérebros, eles são capazes de continuar funcionando em um nível acima dos monolíngues e podem lidar com a doença por mais tempo.  Mas para obter este resultado uma pessoa tem que usar as duas línguas o tempo todo; ela não irá receber o benefício se usar mais de uma língua apenas ocasionalmente.

As pesquisas da Dra. Bialystok também demonstraram que pessoas bilíngues têm um sistema cognitivo com capacidade de se ater às informações mais importantes e ignorar as menos importantes. Segundo ela, há um sistema em nosso cérebro, o sistema de controle executivo, cuja função é manter o foco no que é relevante, ignorando distrações. É o que torna possível para nós termos duas coisas diferentes em nossa mente ao mesmo tempo e alternar entre elas. Se temos duas línguas que usamos regularmente, cada vez que falamos a princípio ambas as línguas são ativadas, e o sistema de controle executivo tem que decidir o que é relevante no momento. Portanto, pessoas bilíngues usam o sistema de controle executivo com maior frequência, o que faz com que ele se torne mais eficiente.

O desenvolvimento de novas tecnologias de neuroimagem ajudou os cientistas a ver como as estruturas cerebrais trabalham em harmonia. Em termos de monolíngues e bilíngues, a pesquisadora descobriu que as conexões são diferentes. Portanto, monolíngues resolvem um problema usando sistemas X, mas quando bilíngues resolvem o mesmo problema, eles usam outros sistemas. Aparentemente bilíngues usam uma rede de sistemas que pode incluir centros de linguagem para resolver problema não-verbais. Seus cérebros parecem se configurar de maneira diferente por causa do bilinguismo.

Segundo a Dra. Bialystok, há duas razões principais por que pais que vivem fora de seu país devem ensinar sua língua materna para os filhos. A primeira é porque isso conecta as crianças a seus antepassados. A segunda é o resultado da sua pesquisa: bilinguismo é bom para as pessoas, pois envolve um exercício mental que produz cérebros fortes.

A entrevista pode ser lida na íntegra
aqui.




Copyright © Claudia Storvik, 2011. All rights reserved. 


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quinta-feira, 24 de março de 2011

Mais livros infantis em português

No post Livros infantis em português disponíveis online prometo postar mais links para livros em português que podem ser encontrados na International Children’s Digital Library. Como promessa é dívida, seguem abaixo links para outros dez livros. As capas de alguns desses livros não foram traduzidas para o português, mas as páginas com o texto principal foram, portanto não desistam da leitura ao se depararem com uma capa em ingles ou alemão – apenas sigam clicando em frente, pois o texto principal estará em português.  

Boa leitura!




Momotaro, ou o menino pêssego

Eu não contaria mentiras

Era uma vez um jovem mago

Oscar

A moça que ordenhava vacas

Richard, o pássaro

Os três porquinhos

O corvo real

A bela adormecida

Ponto a ponto

Tyrone, o terrível

Waldo, um, dois, três

Waldo e a aventura na ilha deserta

Waldo no zoológico

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domingo, 20 de março de 2011

Livros infantis em português disponíveis online

A International Children’s Digital Library (ICDL, ou Biblioteca Digital Infantil Internacional) é uma fundação que coleciona livros infantis de dezenas de países em versão digital. A missão da fundação é ajudar crianças do mundo todo a se tornarem membros efetivos da comunidade global através de tolerância e respeito a diversas culturas, línguas e idéias - oferecendo o melhor da literatura infantil mundial online gratuitamente.  A coleção inclui 4.459 livros em 54 idiomas e tem usuários em 228 países diferentes. Os livros também estão disponíveis através de aplicativos para iPhone e iPad. 
O direito de publicar os livros no seu site e distribuí-los eletronicamente é concedido à ICDL gratuitamente pelos autores. Os livros são então traduzidos para vários idiomas por voluntários.

Se você é autor de livros infantis e gostaria de divulgar sua obra através da ICDL, pode conceder o direito não exclusivo de transmissão eletrônica à fundação e ter seus livros adicionados ao arquivo. Maiores detalhes aqui. Se você gostaria de ser voluntário da ICLD e traduzir livros para idiomas que você domina, entre em contato com a fundação. Você também pode ajudar a ICDL se tornando seu embaixador – veja como clicando aqui. 

Abaixo, links para alguns dos livros disponíveis em português. Links para outros livros em português aparecerão num post futuro. Boa leitura!

 



sexta-feira, 11 de março de 2011

23 dicas sobre bilinguismo

As brasileiras Regina Camargo e Eliana Elias são especialistas em educação infantil e há muitos anos moram em São Francisco, nos Estados Unidos. Elas também são mães e lideram um grupo de pais que organiza atividades para incentivar o ensino de português para crianças na região onde vivem. Regina e Eliana escreveram um artigo excelente, que contém a lista mais completa de dicas práticas sobre educação de crianças bilíngues que já encontrei em língua portuguesa, e gentilmente autorizaram a reprodução do artigo aqui no blog. As ótimas dicas das duas educadoras portanto seguem abaixo. Boa leitura!

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Brasil ou Brazil? Nossas crianças têm de escolher?

Por Regina Camargo e Eliana Elias

Muitos pais nos pedem sugestões práticas para continuarem a apoiar o desenvolvimento da língua portuguesa dentro de casa. A verdade é que existem muitas formas de se fazer isso, e nem todas as estratégias usadas serão bem sucedidas em todas as famílias. Temos que considerar várias diferenças: nível educacional da família, temperamento das pessoas envolvidas, línguas faladas por outros membros da família, etc. Porém, entendemos que a formação de uma identidade cultural sadia e o desenvolvimento de relacionamentos positivos dentro da família são fundamentais para qualquer aprendizado. Portanto, longe de criarmos uma lista completa, estaremos dividindo algumas sugestões que nos ajudaram na formação da nossa abordagem educativa.







1- Faça um esforço consciente - A perda da língua materna ocorre na maioria dos grupos de imigrantes. Quando a criança é cercada por uma língua dominante, ela tende a desenvolver a preferência pela língua falada na escola, na rua e nos meios de comunicação. Famílias de imigrantes que querem apoiar o desenvolvimento da língua materna têm de fazer um esforço consciente para que isso aconteça.

2- Cultive relacionamentos positivos - A língua não passa de um veículo para unir as pessoas. O ser humano nasce com o instinto natural de se comunicar, de compartilhar experiências com outros seres humanos. A base de todo aprendizado está no relacionamento. Relacionamentos positivos ajudam na formação de uma comunidade receptiva, que estimula a comunicação.

3- Mantenha a naturalidade - Muitos pais desistem de falar sua língua nativa quando seus filhos começam a responder na língua dominante. Outros se tornam militaristas, e forçam o uso do português dentro de casa, a ponto de transformarem as interações entre pais e filhos em algo extremamente negativo. O ideal é procurar um equilíbrio. A melhor forma de se cultivar a língua é criar um ambiente natural e positivo, onde nenhuma língua é proibida.

4- Crie um ambiente onde todos os membros da família possam conversar e trocar idéias - Muitos imigrantes levam uma vida muito corrida, sempre trabalhando muito. É preciso lembrar que a criação de rotinas familiares, como refeições, idas ao parque, passeios e eventos festivos formam a base da vida afetiva da criança. Temos que, deliberadamente, criar rituais onde os membros da comunidade possam achar oportunidades para comunicação diária.

5- Evite usar as crianças como intérpretes dos mais velhos - Crianças tendem a aprender a língua do país hospedeiro bem mais rapidamente que seus pais. Em muitas comunidades de imigrantes as crianças tornam-se tradutoras. Pesquisadores têm documentado os efeitos negativos que essas práticas, aparentemente inofensivas, têm na formação da identidade das crianças. Ter um papel de tamanha responsabilidade confunde a criança, que passa a ver os pais como incapazes. Essa mudança na hierarquia familiar traz problemas que são ainda mais visíveis nos adolescentes. Os pais que aprendem a língua dominante ou que procuram manter a hierarquia familiar intacta têm mais chance de manter um relacionamento sadio com seus filhos.

6- Crie oportunidades para a criação de projetos - Projetos simples, como pintar um quarto, fazer um bolo, escrever uma estória, costurar uma roupa ou confecionar um carrinho de madeira, proporcionam plataformas para desenvolvimento de vocabulário rico e um contexto de aprendizagem novo e cativante. Crianças amam um projeto!

7- Veja as crianças como fontes de inspiração - Observe as ‘paixões’ das crianças e incentive essas paixões. Futebol? Animais? Música? Quase todos os assuntos tornam-se ricas fontes de aprendizado.

8- Fique atento aos ‘erros’ - Tente não se tornar a ‘polícia linguística’ de seus filhos. A correção excessiva dos erros pode inibir o desenvolvimento natural da língua. Porém, fique atento aos erros. Eles podem ser fonte de informação interessante… uma das estratégias efetivamente usadas é repetir a frase corretamente durante a conversa. Outra é simplesmente ‘guardar’ o erro e falar sobre ele dentro de um outro contexto.

9- Crie um ambiente linguisticamente rico - Incentive boa música, livros e oportunidades para conversar. Leia! Leia! Leia! A força da leitura não pode ser minimizada. Livros desenvolvem o vocabulário, a capacidade de compreensão, o conhecimento geral e a criatividade.

10- Use um vocabulário variado e fuja das palavras comuns - O fato de estarmos morando fora do nosso país faz com que as fontes de inspiração linguísticas dos nossos filhos sejam limitadas. Por isso devemos fazer um esforço contínuo para darmos a eles a experiência de um vocabulário variado. Por exemplo: ao invés de dizer simplesmente “Que sorvete bom!”, exagere, diga “Esse sorvete está extremamente delicioso… nunca provei algo assim… um manjar dos Deuses!”.

11- Use gestos e repetições - A linguagem corporal tem um valor muito grande dentro da comunicação. Use e abuse de gestos para criar um contexto onde as palavras possam se encaixar normalmente. Se a criança não entender algo, evite a tradução. Mude as palavras, explique de outra forma. Use a tradução somente quando extremamente necessário.

12- Crie contextos diferentes e divertidos - Passeios, shows, brincadeiras e jogos são ótimas formas de estimular a imaginação e o uso da linguagem.

13- Estimule a formação de uma comunidade - Crianças e adolescentes precisam de ‘espelhos’ que reflitam suas realidades. A conexão com outras pessoas que desfrutam de experiências similares estimula a formação de uma identidade cultural sadia.

14- Demonstre interesse pela leitura e pela beleza da linguagem - Crianças imitam o comportamento dos pais. Seja expressivo sobre seu interesse pela beleza da língua portuguesa. Leia para seus filhos, leia com seus filhos e leia enquanto seus filhos estejam observando você.

15- Faça um investimento em materiais educativos - Evite entrar nas armadilhas da sociedade de consumo! Busque brinquedos educativos e reusáveis. O ato de brincar é importantíssimo para a formação cognitiva da criança.

16- Evite atividades passivas - Crianças que passam muitas horas na frente da televisão ou do computador perdem a chance de interagir ativamente com outras pessoas ou com materiais educativos.

17- Construa ‘pontes’ de entendimento entre a escola e a família - Mesmo as famílias que não falam a língua dominante devem desenvolver um papel ativo na escola. Procure formas de participar da vida escolar de seus filhos.

18- Cultive orgulho pela nossa cultura, língua e costumes - Nossa língua está intimamente conectada com nossa cultura.

19- Evite ser excessivamente patriótico - Um grande número das crianças brasileiras imigrantes não retornará ao Brasil. Viver com essa realidade é entender o papel que temos na formação de crianças que têm aptidão multicultural. É importante cultivarmos a apreciação por TODAS as culturas e línguas que nos cercam. E também importante não colocarmos a cultura hospedeira e a cultura brasileira em competição.

20- Fale abertamente sobre as diferenças culturais - Explicações simples como: “No Brasil as pessoas se cumprimentam com três beijinhos e aqui a gente aperta a mão.” São mais descritivas que julgamentos como: “No Brasil as pessoas são mais calorosas, aqui todo mundo é tão frio!”.

21- Fale sobre o processo de aprendizagem da língua, tornando-o consciente - O processo de desenvolver duas línguas é às vezes complicado. Conversando com as crianças sobre esse processo podemos ajudá-las a desenvolver ferramentas para que elas possam melhor enfrentar os desafios.

22- Evite usar o português como forma de chamar a atenção das crianças - Temos que procurar construir laços positivos com o português. Por isso, usar o português somente para corrigir o comportamento das crianças não é recomendável.

23- Procure manter laços com sua família brasileira - A tecnologia nos disponibiliza muitas formas de continuarmos a ter contato com nossas famílias no Brasil. Telefonemas, cartas, e-mails e vídeos se tornam influências poderosas na formação das crianças. Meus filhos, por exemplo, adoram receber vídeos dos tios, tias e primos. Nesses vídeos, alguns membros da família contam estórias, outros leêm livros e outros simplesmente mandam recados.

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[O artigo acima foi publicado originalmente no site Contadores de Estórias]


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