segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Alfabetização de crianças bilíngues em português, parte 1 - Transferência de conhecimentos entre as línguas

Pelos comentários recebidos de vários leitores do blog, bem como outros feitos pessoalmente e por email, notei uma certa ansiedade de alguns pais com relação à alfabetização de seus filhos em português, e decidi escrever sobre a nossa experiência. Apesar do desenvolvimento da língua falada ser um pré-requisito do processo, alguns dos pontos em questão devem ser considerados pelos pais desde muito cedo, portanto o assunto pode ser de interesse também para pais de crianças que ainda estão desenvolvendo a linguagem oral.

Não sou especialista em alfabetização nem tenho pretensão de dar orientação nesta área, mas vou tentar explicar o que aprendemos com nossa experiência prática e discutir algumas constatações de pesquisadores. As idéias vão ser expostas em três posts, que são complementares e devem ser lidos em conjunto. 


  

Uma coisa que provavelmente posso dizer com certeza é que crianças se beneficiam se forem estimuladas e introduzidas no mundo das letras desde bebezinho, independentemente do idioma ou idiomas em que se dá este estímulo.  Como já mecionei num artigo anterior, pesquisas demonstram que um ambiente linguisticamente rico em casa facilita muito a alfabetização da criança, mesmo que esta ocorra em outra língua. Ou seja, se os livros, jogos, etc., aos quais você expõe seu filho em casa são em português, e seu filho começa a ser alfabetizado na escola em inglês, a experiência linguística doméstica em português vai ser um fator positivo para a alfabetização em inglês. 


Alguns estudos recentes mostram que, desde uma idade precoce, o multilinguismo pode também ajudar as crianças a adquirir mais rapidamente o domínio da leitura e da escrita, ou seja, conhecer uma segunda língua ajuda a criança a compreender mais depressa a escrita.

Especialistas também confirmam a existência de transferência de conhecimentos entre as línguas no que diz respeito ao processo de alfabetização, aos sistemas sonoros (fonologia) e a habilidades de comunicação. Na prática o que nós observamos foi exatamente a transferência para o português dos conhecimentos adquiridos no processo de alfabetização em inglês, fazendo com que o aprendizado do português escrito se desse de uma forma mais ou menos espontânea.

   

Para pais pensando em alfabetizar filhos bilíngues, o primeiro ponto importante destacado por especialistas é que a alfabetização em uma língua específica só deve ser iniciada quando a criança for totalmente fluente no idioma em questão. Segundo a psiquiatra Vera Zimmermann, da Universidade Federal de São Paulo, o domínio do idioma falado é fundamental para a alfabetização. Se a criança não falar fluentemente o idioma no qual se quer alfabetizá-la, poderá apresentar insegurança e maior dificuldade em assimilar a língua. Nesta situação o melhor provavelmente é priorizar o ensino da língua falada.

Curiosamente, alguns especialistas também afirmam que o conhecimento e a habilidade da criança bilíngue de se adequar às culturas relacionadas às linguas faladas por ela interferem consideravelmente no processo de alfabetização. A meu ver o fator identidade cultural pode ser importante sim, especialmente em relação à motivação da criança.

Apesar da sua fluência em português e inglês e do fato de ela ser uma bilíngue bicultural, decidimos não alfabetizar nossa filha simultaneamente em português e inglês. A maioria dos especialistas é contra a alfabetização simultânea em duas línguas. Segundo eles, distúrbios de grafia são comuns em crianças que passaram por alfabetizações simultâneas. "Não precisa ter pressa. O ideal é introduzir o [segundo] idioma escrito de forma gradativa, depois da alfabetização [no primeiro idioma]. Ao misturar tudo, podem surgir problemas como dislexia e dificuldades ortográficas", afirma a psicopedagoga Nívea Maria de Carvalho Fabricio, em entrevista a  Folhaonline. Concordo plenamente que não é necessário haver pressa em ensinar a criança a ler e escrever numa segunda língua. A meu ver o importante é que na infância ela ganhe fluência oral nos vários idiomas, aproveitando a facilidade natural que tem nessa fase.

Após ter sido alfabetizada em inglês nossa filha teve muito contato com o português escrito, sempre de forma lúdica, ou seja, através de atividades descontraídas e desobrigadas de intencionalidade, livres de pressões e avaliações. Achávamos que esse contato era o suficiente para aquela fase do seu desenvolvimento. O ensino formal poderia ser introduzido mais tarde, se necessário, pois muitos especialistas dizem que crianças mais velhas, adolescentes e adultos possuem habilidades cognitivas mais avançadas e transferem mais facilmente seus conhecimentos prévios para aprendizagem da escrita em uma segunda língua.  Mas o que ocorreu na prática foi que, após estar alfabetizada em inglês e tendo apenas esse contato lúdico com o português escrito, a pequena começou a fazer progresso também na leitura e escita em português.

Segundo nossa filha, esse progresso ocorreu, mesmo sem treinamento formal, “porque português é uma língua fácil”. Realmente, talvez não seja  tão fácil aprender a falar português, mas ler e escrever em português pode ser bem mais fácil que em inglês por exemplo, pois a ortografia do português é predominantemente fonética, ou seja, as letras ou grupos de letras têm quase sempre o mesmo som. No inglês as regras são bem mais complicadas porque a ortografia é etimológica, ou seja, a um mesmo som podem corresponder diversas letras e a cada letra ou grupo de letras diversos sons, dependendo da história, da gramática e dos usos tradicionais. Um grupo de letras (por exemplo ‘ough’) pode ter mais de quatro sons diferentes, dependendo da palavra onde está inserido. Em português as coisas são mais fáceis e uma criança pode entender as regras gerais do sistema instintivamente.  

O processo a meu ver é semelhante ao do aprendizado da fala. Quantas vezes seu filho disse ‘fazido’ ou ‘mais bom’ quando estava aprendendo a falar? Ele estava simplesmente usando as ‘regras’ que tinha instintivamente entendido que se aplicavam à língua (de acordo com o especialista Noam Chomsky, quem domina uma língua internalizou um conjunto de regras que especifica as sequências permitidas naquela língua). As exceções são aprendidas com o uso continuado do idioma. Uma vez que a criança é alfabetizada numa língua que usa o alfabeto latino, e especialmente se é alfabetizada pelo sistema fônico (do qual falarei no próximo post), a meu ver ela tem as ferramentas necessárias para decifrar o código do português escrito da mesma forma que fez com o falado. Tudo o que ela precisa a partir daí é motivação, estímulo e contato suficiente com o português escrito para, com a prática, aprender as exceções.

Copyright © Claudia Storvik, 2010. All rights reserved.

Veja também  Alfabetização de crianças bilíngues em português, parte 2 - É forjando que se faz o forjador

Alfabetização de crianças bilíngues em português, parte 3 - Motivação e estímulo
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