quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Alfabetização de crianças bilíngues em português, parte 3 - Motivação e estímulo

Concluí a segunda parte da trilogia de posts sobre alfabetização dizendo que o segredo do sucesso de crianças que aprendem a ler e escrever em português sem treinamento formal parece estar na combinação de uma boa alfabetização na primeira língua com uma grande fluência no português falado e muita motivação para decodificar o português escrito. Neste derradeiro post sobre alfabetização vou tratar da questão da motivação e do estímulo da leitura e da escrita em português.






A motivação da criança para ler e escrever em português é talvez um aspecto um pouco negligenciado pelos pais. Como com a linguagem falada, a meu ver também é necessário que a criança queira acessar material escrito em português, que veja o valor da literacia em português, para que a mesma se dê de modo mais espontâneo.

Nossa filha é privilegiada, pois tem muitos parentes e amigos que estão constantemente lhe dando livros e outros materias que estimulam a leitura em português. Com tanto material interessante para desbravar, a motivação para ler é muito maior. Também usamos correspondência com parentes e amigos no Brasil, especialmente os da mesma idade de nossa filha, seja por carta, email ou instant messaging, para motivá-la a escrever em português. O uso da linguagem escrita de forma prática, em atividades que a criança gosta, aumenta o valor da literacia no idioma, da mesma maneira como ocorre com a linguagem falada.

Estímulo constante também é importante. Antes de ela ser alfabetizada em inglês, estimulávamos nossa filha em relação à leitura e à escrita com várias atividades. Por exemplo:
  •  Desde muito cedo eu lia estórias para ela em voz alta, mostrando o texto que estava lendo, e apontando para cada palavra lida – a criança tem que entender desde pequena que a escrita representa a fala. Isso também vai ajudar a criança a compreender melhor a estrutura da linguagem, por exemplo que existem espaços entre as palavras e que a escrita vai da esquerda para a direita. A meu ver esta técnica dá excelentes resultados. Eu recomendo!
  • Eu sempre lia interpretando as estórias, colocando muita emoção, fazendo vozes para os personagens.
  • Conversávamos constantemente sobre os livros que estávamos lendo. Ela fazia perguntas sobre o texto, eu pedia para ela adivinhar o que iria acontecer em seguida conforme lia a estória, falávamos sobre coisas no livro que ela podia associar a seu dia a dia.
  • Líamos os seus livros favoritos várias vezes pra ela.
  • Nossa filha sempre gostou de desenhar, desde bebê, e sempre teve papel, lápis, giz de cera, lápis coloridos e canetas à sua disposição. Isso a ajudou a desenvolver sua coordenação motora e a aprender a escrever cedo e sem problema. Nós também fazíamos com que ela nos visse constantemente usando materiais de escrita, por exemplo escrevendo bilhetes, cartas ou cartões.
  • Visitávamos nossa biblioteca local e a biblioteca central do distrito com frequência, desde quando ela era bebê. Inclusive desde pequena ela tinha seu próprio cartão para empréstimo de livros. Ela sempre saía feliz da vida com um monte de livros emprestados, com os quais se divertia muito. Aliás, os bebês devem ter contato com livros com ilustrações, próprios para sua idade, desde pequeninos. As crianças precisam experimentar vários tipos de material de leitura. Por exemplo, livros só de figuras, quadrinhos, revistas, gibis, poemas e até jornais.

Sempre agimos com nossa filha como se ler e escrever também em português fosse uma coisa que ela iria poder fazer naturalmente, sem muita complicação.  Após a alfabetização em inglês ela continuou tendo muito estímulo e muito contato, de forma lúdica, com o português escrito:

  • Eu deixava bilhetes em português para ela, inicialmente sem saber ao certo se ela entendia o que estava escrito neles ou não. Ela também sempre tentou escrever seus bilhetes pra mim em português. No início com muitos erros ortográficos, mas melhorando rapidamente com a prática.  
  • Ela foi sempre cercada de livros em português apropriados para sua idade. Eles estavam à sua disposição, na estante de livros que há em seu quarto, se ela quisesse lê-los, mas nunca insistimos que ela lesse algum livro em particular ou num idioma específico. A escolha era dela.
  • Eu também comprava em sebos aqui da Inglaterra livros infantis em inglês ou outras línguas e colava uma cópia do texto traduzido para o português sobre o texto original. Esta é uma ótima alternativa para quem não tem acesso a livros infantis em português.
  • Ler gibis pode ser muito bom, pois os desenhos ajudam no entendimento do texto. Nossa filha adorava ler gibis brasileiros. 
  • Todo natal, páscoa, aniversários e em outras datas especiais ela escrevia cartões para a família no Brasil: inicialmente ela ditava a mensagem para mim, eu escrevia num papel e ela copiava no cartão, mas com o tempo ela passou a compor seus próprios textos.
  • Quando íamos ao supermercado com uma lista (sempre escrita em português) pedia para ela conferir o que faltava colocar no carrinho, enquanto eu ia buscar algum produto.  Fazia o mesmo quando estávamos cozinhando juntas seguindo uma receita.
  • Durante um período nossa filha frequentou aulas de duas horas por semana numa escolinha de português que, apesar de não alfabetizar as crianças, usava material escrito para ensinar vocabulário e gramática.  As aulas eram sempre lúdicas, as crianças achavam que a escolinha era um lugar pra se divertir. Mesmo assim acredito que os benefícios que nossa filha teve foram imensos.

    Algumas dicas

    Tenha paciência, não pule etapas – cada criança se desenvolve no seu tempo. Pode haver bloqueio ao aprendizado se a criança sofrer pressão para atingir metas que estão além da sua capacidade.

    Se você tiver qualquer ansiedade com relação à alfabetização não deixe seu filho perceber, nem dê a impressão de que o processo vai ser difícil.

    Não critique nem aponte errors – se a criança escreve uma palavra errada repetidamente, simplesmente faça com que ela tenha contato com a forma correta de escrita da palavra no futuro. Mas se ela lhe perguntar como se escreve, ensine.

    Toda a família pode ter um papel importante na alfabetização, expressando alegria e orgulho das tentativas da criança de ler, demonstrando a importância da alfabetização, tanto no idioma falado em casa quanto no do país de residência.

    Conclusões

    As conclusões a que cheguei, considerando o desenvolvimento de nossa filha na prática, e que talvez se apliquem única e exclusivamente a ela, pois cada criança é diferente, são as seguintes:
    •   A base do sucesso da biliteracia parece estar na qualidade da alfabetização na primeira língua, um processo que se inicia bem cedo, com os estímulos proporcionados pelos pais, passa pela maneira como a alfabetização se dá na escola e pela motivação da criança para usar e desenvolver a leitura e a escrita.
    •   Uma vez que a criança aprende a ler e escrever na primeira língua, ela está alfabetizada. A partir daí ela tem capacidade de transferir conhecimentos e aplicar as técnicas em questão para ler e escrever em outras línguas baseadas  no mesmo alfabeto, especialmente se usa as técnicas do sistema sintético ou fônico. O processo de ‘alfabetização’ não tem que ser repetido cada vez que a criança tenta aplicar as técnicas a um novo idioma. O que precisa haver é prática.
    •   A vontade da própria criança de ler e escrever na língua em questão facilita enormemente o processo. Quando esta vontade aflorar a criança estará pronta para transferir espontaneamente os conhecimentos obtidos na alfabetização no primeiro idioma.
    •   A fluência oral no idioma em que se quer que a criança leia e escreva é essencial. Decodificar palavras impressas não é suficiente para competência em leitura; é também preciso reconhecer as palavras, para saber como são pronunciadas e ser capaz de interpretar o significado do texto - quanto maior for a fluência oral, mais fácil será esse reconhecimento e essa interpretação.
    • Mesmo que a criança precise ter aulas formais, o amor pela leitura e o interesse pela cultura do país onde a língua é falada são fatores que vão agilizar muito o desenvolvimento da leitura e da escrita na segunda língua.

    Copyright © Claudia Storvik, 2010. All rights reserved.



    13 comentários:

    Dani disse...

    Muito interessante Claudia. Vc disse q desde bb sua filha desenhava e q vc lia p ela. Fiquei curiosa para saber com qual idade acontecia isso.

    Tb queria saber mais sobre a escolinha brasileira q vc gestia em Londres. Tem algum site?

    Claudia Storvik disse...

    Brincavamos com uns livrinhos de pano, com desenhos bem simples, desde que minha filha tinha uns 2-3 meses. O seguinte artigo da otimas dicas: http://www.fisher-price.com/fp.aspx?st=665&e=expertadvice&catnamestart=b&ccat=PS_Bonding&content=78230 . A escrita tambem comecamos bem cedo, assim que ela conseguiu segurar o lapis/pincel. Veja http://www.pbs.org/parents/readinglanguage/baby/writing_milestone_baby.html . Quanto a escolinha, infelizmente nao tenho nada em formato eletronico, mas estou planejando um post no futuro contando tudo sobre a Escola Brasileira de Bromley. Abraco, Claudia.

    Chris Pessoa disse...

    Oi, Cláudia! Obrigada por esta série de posts, me ajudaram muito.
    Fiquei com uma dúvida... não sei se seu marido também é brasileiro. Aqui eu e meu marido somos brasileiros e falamos português com nossa filha que tem 2 anos e 5 meses. Moramos na Finlândia e como viemos somente por 2 anos, nem me preocupei que ela aprendesse nada de finlandês, para não dificultar as coisas. Ela assiste desenhos em inglês e português, mas falamos somente português com ela. Ela ainda está aprendendo a falar e, apesar de falar algumas palavras em inglês, posso dizer que a fluência dela é em português. Vamos nos mudar para os EUA em breve e ela deve começar lá a escolinha ainda este ano, quando completar 3 anos. No primeiro post da série, li que a criança só deve ser alfabetizada quando for fluente no idioma... aí fiquei preocupada. Ela será alfabetizada em inglês, mas ela não tem fluência em inglês. Eu até já tinha pensado que isso poderia causar algum tipo de trauma e para evitar, eu tinha pensado em colocá-la em algumas atividades tipo aulinha de dança, de música, etc, para ela ter mais contato com o inglês e o início da escolinha ser menos traumatizante... Como foi com sua filha? Ela já era fluente em inglês? Você tem algum dica pra me dar?
    Obrigada!

    Sabrina Simpson disse...

    bom dia Claudia! achei o seu blog, depois de ler um dos seus artigos no http://www.chacomleite.com, tenho que te dar meus parabéns, por escrever um blog tao fascinante. Cada post e mais bacana do que o outro, eles sao simples mais intrigantes. E obviou que você fica muito tempo escrevendo este blog, e todos nós somos muito gratos a você! As fotos do blog tambem sao bem bonitas, gostei MUITO! x

    Bjs

    Sabrina Simpson (a sua fã numero um! :D)

    Claudia Storvik disse...

    Ola, Chris. Meu marido e noruegues – de uma olhada nos posts Casais multilingues e A Torre de Babel e aqui. Voce e seu marido estao certissimos de falar somente portugues com sua filha. A recomendacao dos especialistas e que os pais falem com os filhos em sua lingua materna. Tambem nao ha razao para voce se preocupar com a alfabetizacao dela. Se ela comecar na escolinha americana aos 3 anos de idade, em 6 meses ela vai estar falando ingles. E nos Estados Unidos a alfabetizacao tende a comecar um pouco mais tarde (parece que varia de estado pra estado, mas a media e 5 anos), entao ela vai ter tempo pra ganhar fluencia oral no idioma antes de comecar a aprender a ler e escrever. De qualquer forma, voce pode conversar sobre o assunto com a escola e pedir que eles se concentrem primeiro no desenvolvimento da fluencia oral. Posso tambem garantir que ir pra escolinha sem falar ingles nao vai ser ‘traumatizante’ pra sua filha. Nessa idade a fala e apenas uma das formas de comunicacao usadas pelas criancas. Conheco varios pimpolhos que passaram por essa experiencia sem o menor problema. Se voce puder expor sua filha ao ingles de forma natural, como assistir desenhos e filmes em ingles, participar de playgroups, etc, otimo. Mas o importante e voces nao passarem a falar ingles com ela por medo que ela tenha um problema de comunicacao na escolinha. Por favor nos mantenha informados! Um abraco, Claudia

    Claudia Storvik disse...

    Seja bem-vinda, Sabrina! Realmente escrever este blog toma tempo e as vezes me pergunto por que estou fazendo isso, mas quando recebo feedback positivo vejo que os artigos parecem ajudar bastante as pessoas. Sao comentarios bacanas como o seu que me estimulam a continuar escrevendo. Obrigada por se tornar seguidora. Espero que volte sempre. Um abraco, Claudia

    Keyla disse...

    Oi Claudia!
    Achei seu blog por acaso e amei! Já virei seguidora e adicionei o seu blog na minha lista. Adorei a série que você postou sobre alfabetização, tinha muitas dúvidas de quando começar. Já que meu filho irá fazer 6 anos agora em fevereiro e ainda está sendo alfabetizado na escola. Eu já estava começando com o processo de ensiná-lo o português escrito, mas ao ler seu post vi que a melhor coisa é adiar um pouco o processo. O que não tem problema algum, já que não me sinto preparada para ensiná-lo a ler e escrever.
    O que tem ajudado até agora é a paixão que meu pequeno tem pelo Brasil e por nossa cultura desde da culinária aos livros. Ele pronuncia todas as letras de maneira correta e tenta ler algumas coisas, tudo sem pressão.
    Bom, eu baterei cartão por aqui daqui pra frente. Ótimo blog, parabéns!!

    Claudia Storvik disse...

    Oi Keyla, seja bem-vinda! Obriagada pelos comentarios e por se tornar seguidora. Essa paixao pelo Brasil que voce passou para seu filho vai render muitos frutos, pode ter certeza. Um abraco, Claudia

    Carine disse...

    Claudia, seus conselhos são de ouro. Adoro vir aqui! obrigada por compartilhar :)!
    beijao

    Vakachá disse...

    Claudia, vc esta na Inglaterra ? Sou brasileira e meu bebe tem apenas 1 ano, estou nas mesmas duvidas que muitas maes aqui neste forum, queria trocar dicas sobre livros e coisas que possam me ajudar a educar o Sami falando Portugues. Bjs

    Claudia Storvik disse...

    Ola Vakacha, sim estou em Londres. O blog contem varios posts com dicas, mas se voce quiser conversar com outras maes num forum formal sugiro que acesse no Facebook a pagina de discussoes do site Maes Internacionais. Boa sorte. Um abraco, Claudia

    Anônimo disse...

    Olá Claudia, descobri o seu bloc por acaso e foi muito esclarecedor, eu sou brasileira casada com um britânico e moramos no Brasi, temos 2 filhos de 6 e de 3 anos, os dois são bilingues principalmente o mais velho que fala nas duas linguas com uma fluência de uma criança nativa da sua idade. Nós sempre incentivamos a leitura em casa, eles tem muitos livros nas duas linguas. O meu filho de 6 anos está na alfabetização e sempre tive muita dúvida de como agir para facilitar este momento, apesar de as vezes eu notar que para ele isto é algo que muito natural. O seu blog me ajudou a tirar algumas dúvidas, obligada.

    Cinthia hotchin stylianou disse...

    Ola Claudia...tb moro Na Inglaterra e meu bebe tem 18 meses....meu esposo eh ingles e nao fsla portugues. Entao eh melhor ensina-lo a ler e escrever depois dele saber ler e escrever em ingles...ok...entendi. Uma duvida: Com quantos anos voce comecou a alfabetizar sua filha em Portugues? Obrigada

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