domingo, 12 de dezembro de 2010

Alfabetização de crianças bilíngues em português, parte 2 - É forjando que se faz o forjador

Este é o segundo de três posts em que falo sobre alfabetização em português e tento mostrar o que aprendemos com nossa experiência. No primeiro post expliquei como crianças podem transferir conhecimentos obtidos na alfabetização de uma língua para outra e aqui vou falar de alguns fatores que permitiram que no nosso caso o processo se desse na prática. 


Várias circunstâncias conspiraram para facilitar a transferência de conhecimentos por nossa filha da alfabetização em inglês para o português. Em primeiro lugar, a língua inglesa usa o mesmo alfabeto que o português. Haveria sem dúvida muito mais complicações se a alfabetização inicial tivesse sido em japonês ou russo – nesse caso suponho que teríamos que partir praticamente da estaca zero.   

Também tivemos sorte por termos encontrado uma escola que alfabetizasse nossa filha usando o sistema fônico, no qual se ensina o som das letras, ao invés do método usado pelas escolas públicas inglesas na época, o construtivista ou global, que faz com que a criança aprenda a ler palavras inteiras, quase que tendo que adivinhar o que está escritoA principal diferença entre o método fônico e o construtivista é o ponto de partida: o fônico parte das letras e seus sons para formar, com elas, sílabas, palavras e depois frases; o construtivista parte das frases que se examinam e se comparam para, no processo de dedução, a criança encontrar palavras idênticas, sílabas parecidas e discriminar letras. Além de formar leitores mais capazes, as técnicas aprendidas com o sistema fônico podem ser facilmente transferidas para o português e outras línguas. O sistema construtivista, por outro lado, chegou a ser proibido na França, devido a alegações de que poderia causar dislexia (leia aqui reportagem da revista Veja sobre a doutrina construtivista nas escolas brasileiras). De fato, o método usado na alfabetização foi um dos principais fatores na escolha da escola primária para nossa filha e foi uma das razões por que optamos pelo sistema privado de ensino, pois a Inglaterra só reintroduziu o método fônico de alfabetização nas escolas primárias públicas em 2007.

Após sua alafbetização em inglês, instintivamente entendemos que, já que nossa filha conhecia o código do som das letras, ela provavelmente poderia usá-lo razoavelmente bem também com a língua portuguesa. Criamos muitas oportunidades para ela tentar ler e escrever em português sem nenhum tipo de cobrança, para que ela interagisse com o português escrito de forma lúdica. No próximo post, o último da trilogia sobre alfabetização, incluirei uma lista contendo exemplos de algumas das estratégias que usamos nessa fase.

Outro fator importante foi que durante um período após sua alfabetização em inglês nossa filha frequentou a escolinha de português que eu administrava. O objetivo da escola não era alfabetizar as crianças em português e sim ensinar e aprimorar a língua falada, mas muitas atividades que visavam enriquecer o vocabulário ou desenvolver conceitos de gramática envolviam materiais escritos. Aos pouquinhos, e sem sentir, as crianças iam cada vez mais se familiarizando com o português escrito, cada uma no seu ritmo. A atitude era a mesma que tínhamos em casa: as crianças já alfabetizadas em inglês podiam transferir conhecimentos e decodificar palavras e frases simples em portuguêsE a prática leva à perfeição, ou, como diz o provérbio francês, "é forjando que se faz o forjador".  

O resultado foi que, de uma forma tão espontânea que nos surpreendeu, logo a pequena estava lendo e escrevendo competentemente também em português, e seu contato constante com o português escrito tem permitido que ela aprimore seus conhecimentos gradativamente.

Talvez nossa filha precise de aulas de ortografia no futuro, se tiver planos mais ambiciosos com relação à língua portuguesa. No entanto, ela fez recentemente um simulado do exame escrito de português do GCSE, o General Certificate of Secondary Education, que alunos podem fazer ao final do ensino médio na Inglaterra, e tirou uma nota excelente, demonstrando formalmente um ótimo nível de competência na leitura e escrita do português.

Apesar de muitos dos seus colegas da escolinha não terem aprendido a ler e escrever em português da mesma forma que ela, nossa filha não é um caso isolado. Tenho uma amiga, que agora mora nos Estados Unidos, cuja filha, que nasceu e sempre viveu fora do Brasil, aprendeu a ler em português praticamente sozinha - porque adorava ler gibis brasileiros.  O filho de uma outra amiga, nascido e educado na Inglaterra, lê e escreve em português sem nunca ter sido formalmente alfabetizado no idioma. Também conversei com uma mãe na Holanda recentemente, cujo filho, ainda pequeno, parece estar indo pelo mesmo caminho.

Acredito que o segredo do sucesso desses casos esteja numa boa alfabetização na primeira língua, combinada com uma grande fluência no português falado e muita motivação para decodificar o português escrito.

***

Material de apoio para alfabetização no sistema fônico
O site Phonics4free é recomendado por Chris Woodhead, editor de educação do jornal The Times de Londres, ex Inspetor-Chefe de Escolas da Inglaterra e presidente do grupo de escolas Cognita. O site ainda está em construção, mas já contém muito material que pode ajudar pais que queiram ensinar seus filhos a ler usando o sistema fônico. O site é inspirado no trabalho de Mona McNee, que está hoje com 87 anos. Mona alfabetizou seu filho, portador da Síndrome de Down, em casa, contrariando a recomendação de educadores, que diziam que o menino não era capaz de aprender a ler, e desde então dedica a sua vida à alfabetização de crianças, especialmente as com dificuldade de aprendizado.

14 comentários:

Dani disse...

Nossa Claudia, eu chego a ficar sem ar ao ler teus posts. Eles me incentivam muito.
Gostei muito desse post, das informaçoes qut ao método fonico de alfabetizaçao. Vou procurar mais a respeito.
Obrigada por compartilhar!

Claudia Storvik disse...

Ola Dani, desconfio que ai na Italia o metodo fonico seja o usado na maioria das escolas. De uma olhada neste artigo do NY Times: http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9B01E3DC1E3EF933A25757C0A9679C8B63 . Abraco, Claudia

Anônimo disse...

Moro nos estados unidos e vejo que aqui as criancas quase que naturalmente aprendeem a ler em espanhol, por mais que prefiram o ingles, no meu caso minha filha provavelmente vai frequentar uma escola bilingue espanhol, ingles e eu tento falar portugues com ela em casa ... ja notei entre os filhos de brasileiros que os que nao aprendem portugues bem pequenos nao aprendem mais, o q e uma vergonha, mas enfim, alguma dica especifica para uma afabetizacao trilingue??? email grazyfidalgo@hotmail.com

Claudia Storvik disse...

Ola Grazy, a nossa experiencia e que literacia na terceira lingua se desenvolve da mesma forma que na segunda. O principal e estimular o interesse pelo idioma e o contato ludico com a escrita na lingua em questao, conforme sugerido nos posts. Um abraco, Claudia

Monica disse...

Oi Claudia, seu blog esta sempre ajudando nos mamaes a lidar c/ estas situacoes, parabens!
So para reafirmar o que vc diz sobre alfabetizacao, minha filha Lily de 4 anos e meio usa a fonetica inglesa p/ escrever cartinhas em portugues p/ a vovo. Veja que interessante: tambeing, mamaing, schoola, papay, baijoo, Bazil, dya... mesmo nao sendo correto da pra ver que ela sozinha esta utilizando os sons das letras fonicas p/ construir palavras em portugues que ela ouve em casa! Beijos, Monica de Eltham, Londres

Claudia Storvik disse...

Oi Monica, que bom ver voce por aqui. Obrigada pelo comentario. A Lily daqui a pouco chega la, com certeza. Um abraco, Claudia.

Daphne disse...

Oi Claudia! Ainda nao consegui mergulhar no teu blog como gostaria pois me servirà bastante! Eu cheguei a levar o Matteo na fono por ser um serviço oferecido aqui na Italia mas parei devido ao nascimento da nene e pelo desenvolvimento dele que reparei estava melhorando. Hj o levei a um novo pediatra(a antiga aposentou) e o mesmo observou que apesar dele se expressar etc, segundo ele està atrasado e aconselhou que eu retornasse a avalia.lo na fono. Proxima semana devo me organizar para telefonar marcando. O pedi aconselhou o mesmo q a fono havia me aconselhado: falar SEMPRE em portugues com ele pois italiano ele aprende na escola e familiares. Vamos ver no que vai dar...amanha entro aqui com mais animo pois hj acordei mal de gripe e nao estou aguentando ficar em frente ao computador,rs!
Bj e parabens novamente pelo blog, certamente auxilia mtas mamaes como nòs , com filhos bilingues!Bjs, Daphne

Claudia Storvik disse...

ola Daphne, obrigada pelo comentario e boa sorte com o Matteo! Um abraco, Claudia

Anônimo disse...

nossa voce caiu do ceu! eu tenho um filho de 3 anos e moro na Inglaterra. Desde minha ultima vinda do Brasil vim preparada com cartilhas de alfabetizacao e tudo mais, pois gostaria de alfabetizar meu filho em Portugues, pra facilitar sua vida no futuro... Mas eu pensava em ja iniciar antes do inicio da escola britanica, usando o sistema fonetico juntamente com a cartilha em portugues...Voce tem alguma dica nesse sentido? Ele so fala portugues em casa, tem acesso a livros, pega livro na biblioteca, se comunica bem em ingles e esta totalmente consciente das duas linguas ao redor...Se voce puder me dar outras dicas mesmo, ate mesmo sobre caligrafia, ja que aqui todo mundo escreve 'igual' e tambem sobre insercao das materias como geografia, historia e estudos sociais, a melhor idade para inicia - las. Pretendo coloca-lo em uma escolinha particular tambem, e gostaria de ter a oportunidade de faze-lo ter uma experiencia bilingue, como se estivesse em uma escola bilingue no Brasil(que sao carissimas) eu acho que as criancas ficam mto tempo na escola aqui na Inglaterra e nessa escola particular teria a liberdade de inserir as materias sobre Brasil nas sessoes a tarde de acordo com minha decisao. Voce conhece alguem ou tem alguma dica de alguem que seguiu um caminho semelhante? Muito obrigada e estou curtindo muito conhecer seu blog.

Claudia Storvik disse...

Ola, como digo nos posts, nao sou especialista em alfabetizacao, e as dicas que posso dar se limitam a minha experiencia. Infelizmente nao conheco ninguem que tenha feito o que voce esta pretendendo fazer, mas seu plano parece muito bom. Boa sorte. Um abraco, Claudia

Larissa Figueiras disse...

Boa noite, Claudia! EU sou uma mae frustrada, posso me considerar e extramente ansiosa pelo desenvolvimento das minhas filhas gemeas. Moramos nos EUA e meu marido nao fala o portugues. Eu falo com elas em Portugues e elas se expressam nas duas linguas e comentem muitos erros. QUem ouve as meninas falarem , pensam que elas tem 2 anos ou menos, pois elas quase nao formam frases e as palavras sao no maximo dissilabicas. Uma coisa que elas falam bem eh , mamae posso ir , por favor? mas tenho que , de vez em qdo , soprar. A meninas estao no fonoaudiologo 2 X por semana , ja faz 1 mes. Ele estah todo animado: Meninas sao inteligentes , uau!! Nao tenho duvidas nenhuma que elas sao normais , mas me pergunto o porque do atraso na fala , e nas duas! Tenho varios livros em portugues ,leio 2 estorias por noite para elas. Qdo elas desenham, tento ensinar o nome etc. Bem , a questao eh o seguinte: Devo coloca-las na escolinha em Setembro? Seria melhor que o fono , ou os 2 juntos , please HELP me, bjs

Claudia Storvik disse...

Ola Larissa. Sugiro que leia os posts "Bilinguismo e atraso no desenvolvimento da fala" (http://filhos-bilingues.blogspot.co.uk/2011/01/bilinguismo-e-atraso-no-desenvolvimento.html), "Devemos usar apenas uma língua com crianças que apresentam atraso no desenvolvimento da fala?" (http://filhos-bilingues.blogspot.co.uk/2011/08/devemos-usar-apenas-uma-lingua-com.html) e "Atraso no desenvolvimento da linguagem oral e bilinguismo" (http://filhos-bilingues.blogspot.co.uk/2012/02/atraso-no-desenvolvimento-da-fala-nas.html). Um abraco, Claudia

Ana Paula disse...

Oi Claudia,tudo bem?
Gostei muito dos seus comentarios.Moro nos E.U.A,mas estou retornando para o Brasil,e tenho um filho de 7 anos que nasceu aqui e ja foi alfabelizado.Hoje ele faz o 2 grade,fala muito bem o English.Quanto ao Portugues,nos sempre falamos em casa,ele tambem ja fez algumas aulas em portugues,mas ainda assim ele nao fala muito bem,nem escreve...
No Brasil ele ja esta matriculado para o ano Que vem no 3 ano.Estou muiiito preocupada com esta adaptacao.Ah!percebo que quando ele tenta ler em portugues e sempre por associacao.O que devo fazer para ajuda-lo?Obrigada!!!

Claudia Storvik disse...

Ola Ana Paula, o mais importante e' escolher uma escola que saiba lidar com esse tipo de situacao. E tentar nao transmitir sua ansiedade para o seu filho. Um abraco, Claudia

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