sábado, 8 de janeiro de 2011

TV Globo Internacional: meu zen, meu bem, meu mal

No post Crianças bilíngues e o valor das línguas eu digo que uma ferramenta muito poderosa para valorização do português é a televisão brasileira, e prometo tratar exclusivamente do tema em um post futuro. Promessa é dívida, portanto, voilà!



Quando nossa filha nasceu não era possível ter acesso a televisão brasileira na Europa. Em 2001 a Rede Globo começou a mostrar no Brasil uma nova adaptação do Sítio do Picapau Amarelo. Uma tia minha gravava todos os episódios em fitas VHS e nos enviava para que nossa filha pudesse assistir o programa. E a pequena de fato assistia cada episódio várias vezes, era realmente fã da série.    
   
Especialistas afirmam - e eu concordo plenamente - que a melhor forma de ensinar uma língua a uma criança é através de interação humana. Mas meu medo sempre foi que como nossa filha iria aprender português comigo em casa, sem outro contato constante com a língua, seu vocabulário poderia se resumir a frases como  “Filha, venha comer”, “Tá na hora de ir prá cama” e outras semelhantes de cunho puramente doméstico e rotineiro, pois a sua exposição à língua seria principalmente dentro deste contexto. No entanto, quando ela se tornou telespectadora assídua dos episódios do Sítio do Picapau Amarelo, notei que seu vocabulário começou a se diversificar, e eu às vezes a pegava dizendo certas frases que ela só poderia ter aprendido com a boneca Emília! Percebi que tinha encontrado uma ótima ferramenta para ensinar um português mais abrangente para a filhota.

Durante muito tempo minha querida tia continuou gravando e nos mandando os vídeos com episódios do Sítio do Picapau Amarelo mostrados no Brasil. Nossa filha continuou assistindo-os assiduamente, a primeira vez normalmente junto comigo, depois revendo cada episódio várias vezes. Essa repetição com certeza ajudava na assimilação de novas palavras, pois seu vocabulário Lobatiano seguiu crescendo.

Finalmente, quando nossa filha tinha 5 anos, a TV Globo Internacional chegou à Europa. Imediatamente tomei as medidas necessárias para receber o canal.

Modo de usar
Minha intenção nao é sugerir que televisão seja em geral uma coisa boa para crianças. Pesquisadores advertem que passar muito tempo assistindo televisão pode até retardar o desenvolvimento linguístico. No entanto, um estudo recente da Universidade de Westminster revisou uma série de pesquisas validando a hipótese de que “a televisão para crianças é um meio potencialmente benéfico, que em determinadas circunstâncias pode ser uma poderosa ferramenta educacional, pode informar e inspirar, sendo culturalmente relevante para as crianças de hoje”. Em seu livro Children and Television, os pesquisadores Barrie Gunter e Jill McAleer afirmam que se usada adequadamente a televisão pode ser benéfica para as crianças e pode colocá-las em contato com aspectos da vida dos quais de outra forma não teriam conhecimento.  Notem a ressalva ‘se usada adequadamente’. A diferença entre o malefício e o benefício parece estar no modo de usar.

Minha relação com a televisão brasileira sempre foi de amor e ódio. Sem dúvida há atrações de baixa qualidade na programação, mas também há programas interessantes, especialmente para nós que estamos longe do Brasil. A forma que achei para lidar com esse dilema foi a seguinte: o canal brasileiro não foi instalado na sala de nossa casa – ele só está disponível numa televisão que temos na cozinha, a qual assisto quando estou cozinhando, esvaziando a lavadora de pratos, etc. Temos também um gravador de vídeos ligado a essa TV, o qual uso para gravar programas apropriados para a filhota. Quando ela está comigo na cozinha, ligo a TV se estiver passando algum programa apropriado para ela; se não, a TV fica desligada, ou assistimos algum programa gravado anteriormente. Ela não assiste o canal sozinha.

A meu ver o ideal é que pelo menos um dos pais assista televisão com os filhos, ou seja, que use o tempo em frente da televisão como uma forma de educá-los e, especificamente com relação à TV brasileira, como uma forma de ampliar sua visão do mundo, explicando aspectos culturais dos programas que talvez as crianças não entendam, como fazemos quando lemos livros brasileiros para elas. Da mesma forma, palavras que as crianças não conhecem podem ser rapidamente traduzidas e contextualizadas pelo adulto. O ideal é que os pais procurem programas que estimulem o aprendizado da língua e/ou cultura brasileira e os assistam junto com as crianças.

Língua portuguesa
Como expliquei acima, na nossa casa o uso da TV como ferramenta no aprendizado de português se deu a partir dos vídeos do Sítio do Picapau Amarelo que minha tia nos mandava do Brasil e minha filha assistia várias vezes cada um. Essa repetição ajuda muito na assimilação de vocabulário. Encontrei vários artigos na internet, como este, que dão dicas de como usar séries de TV para aprender inglês. Uma estratégia semelhante pode ser usada para o aprendizado de português com séries brasileiras das quais a criança goste.

A televisão também pode ajudar os adultos a ficar em dia com a língua portuguesa. No post Bilinguismo – De volta ao futuro e comentários relacionados a ele, falo sobre a importância de nos mantermos informados sobre a evolução de nosso idioma materno quando vivemos no exterior. Durante os muitos anos que vivi fora do Brasil sem ter acesso à televisão brasileira, quando ia de férias ao Brasil a cada 12 meses percebia que novas palavras e expressões, que eu não conhecia, tinham sido incorporadas à língua. Hoje isto não ocorre, pois tenho contato com novas palavras e expressões através da televisão.

Janela para o Brasil
Mesmo para muitas crianças que vivem no Brasil, o principal meio de contato com a cultura brasileira contemporânea é a televisão. Para crianças residentes no exterior, também poder ter este meio de contato à sua disposição é um privilégio. Nossa filha conhece artistas brasileiros, sabe de cor os últimos sucessos da MPB e assim por diante.  A televisão brasileira não é apenas uma ferramenta para aprender a língua: é também um instrumento que nos possibilita olhar dentro do Brasil, ter informação sobre acontecimentos, modismos e tendências culturais. É útil não apenas para as crianças, mas também para nós adultos que estamos longe do país.


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Adendo


A televisão deve ser usada com muita moderação, especialmente com crianças pequenas, pois especialistas recomendam que crianças com menos de três anos passem o menor tempo possível assistindo televisão. Além disso, assistir televisão dificilmente vai ajudar o desenvolvimento linguístico de uma criança que ainda não fala. Quando minha filha começou a assistir vídeos do Sítio do Picapau Amarelo ela já tinha mais de três anos e falava português bem. E a TV brasileira só chegou à nossa casa quando a pequena tinha 5 anos.  

Pesquisadores da Universidade da Califórnia demonstraram recentemente que assistir DVDs não ajuda na aquisição de vocabulário dos bebês. Em 2006 o governo americano proibiu a Disney de continuar divulgando o seu DVD Baby Einstein como educativo, entre outras coisas porque a Associação Americana de Pediatria não recomenda que crianças de até dois anos de idade sejam expostas a programas de televisão. Em 2009 a Disney passou a oferecer um reembolso a pais que haviam comprado o produto. Veja aqui um artigo do New York Times sobre o incidente.

 

Conforme menciono acima, a melhor forma de ensinar uma língua para uma criança é através de interação humana. Até os 3 anos, quando a criança normalmente ainda está aprendendo a falar, boas alternativas para estimular a linguagem são jogos, estórias (lidas ou improvisadas) e música - além, é claro, de conversar muito com a criança. Como sugere o artigo do New York Times mencionado acima, ir para o chão brincar com o seu filho é a experiência mais educativa que você pode lhe oferecer.



Copyright © Claudia Storvik, 2011. All rights reserved. 


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