sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bilinguismo – De volta ao futuro

Uma história real de bilinguismo, da época em que o fluxo migratório era na outra direção.

Meus avós paternos eram poloneses que emigraram para o Brasil no início do século 20. Não conheci meu avô, mas minha avó falava português com um forte sotaque.



Meu pai foi uma criança bilíngue. Ele nasceu no Brasil e cresceu numa colônia polonesa no Paraná, onde todos falavam apenas polonês. Até entrar na escola, aos 7 anos, ele não falava uma palavra sequer de português. Mesmo sem conhecimento algum da língua que iria usar pelo resto da vida, meu pai foi para a escola feliz e satisfeito e após pouco tempo se tornou um dos melhoes alunos da turma, sempre muito aplicado (e olha que naquele tempo os professores simplesmente colocavam as crianças que não falavam português na última fila e deixavam que se virassem). Mudou-se depois para Curitiba, formou-se em Direito e Jornalismo, deu aulas de português numa faculdade durante muitos anos, fundou um jornal e teve uma carreira brilhante como advogado. Depois de deixar a colônia teve apenas contatos esporádicos com a língua polonesa, mas continuou fluente.
  
A história de meu pai é interessante porque ele aprendeu polonês no Brasil, numa colônia de imigrantes que tinham saído da Polônia no início do século passado e não tinham mais tido contato com seu país de origem. Consequentemente, essas pessoas ensinaram a seus filhos nascidos no Brasil o polonês falado na Polônia no início do século 20; os filhos que seguiram morando na colônia por sua vez ensinaram a seus rebentos a língua que haviam aprendido com os pais, e assim por diante.

Mais de 70 anos depois da ida desses imigrantes para o Brasil, meu pai resolveu finalmente conhecer a Polônia. Eu morava na Noruega na época, e meus pais vinham me visitar uma vez por ano. Numa dessas visitas estenderam a viagem até a Polônia e vários outros países do leste Europeu.

Durante a estadia na Polônia meu pai teve uma experiência muito interessante. Como ele falava polonês fluentemente, esta foi a língua usada durante toda a viagem. Mas muito rapidamente ele percebeu que algo não estava certo.

Apesar de não ter consciência disso, meu pai falava um polonês antigo, cheio de palavras que tinham caído em desuso há muito tempo, e as pessoas estavam achando aquilo extraordinário. Era como se alguém chegasse em São Paulo hoje falando o português usado em 1920. Da mesma forma, inúmeras palavras haviam sido incorporadas à língua polonesa, as quais meu pai desconhecia totalmente. Outra coisa incrível: só durante a estadia na Polônia ele se deu conta de que não sabia que palavras usar em polonês pra se referir a certas coisas com as quais não tinha tido contato na infância, como por exemplo televisão, pois na época em que aprendera polonês televisões simplesmente não existiam. E nessa lista entravam muitas outras palavras como computador, aeroporto, e por aí afora.

Sou fascinada por essa história porque acho que contém uma lição importante para nós que somos o principal ponto de contato entre a língua de nosso país de origem e nossos filhos. Línguas têm vida, evoluem, mudam – e cada vez mais rápido. Precisamos entender esse mecanismo e ficar atentos para que o português seja sempre um elemento dinâmico e significativo dentro do mundo em que vivem nossos filhos.







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10 comentários:

Dani disse...

Uauuu Claudia, adorei essa historia! Cheguei aqui no final do post e fiquei admirada de ainda nao ter nenhum comentario!

Estou lendo desde o inìcio do blog, e estou tomando consciencia da real importancia do bilinguismo. Sempre pensei em criar meu filho assim, mas agora estou entendo muita coisa. E esse seu post, mostra um lado muito importante, de se atualizar, de como vc diz em outro post, valorizar a lìngua portuguesa indo ao Brasil de vez em quando, o que possibilita tb a atualizaçao.
Sobre esse tema, li um livro chamado Language Myths, e o primeiro capitulo, escrito por Peter Trudgill, falava sobre essa variaçao das palavras. Um dos exemplos que ele dà é da transformaçao radical da palavra nice, q originariamente significava"to be ignorant of" e depois de séculos passou a ser "modest, delicate". Nossa, muito interessante! Pensando essa historia que aconteceu com seu pai, imagina usando uma palavra como nice, onde o significado mudou completamente!

Obrigada por compartilhar!

Claudia Storvik disse...

Olá Dani, muito obrigada pelos comentários. Que bom que você está gostando dos artigos. Eles são mesmo todos interligados como você observou. Não conhecia o livro Language Myths mas depois de ler seu comentário dei uma folheada numa livraria virtual e achei super interessante. Já comprei uma cópia – obrigada pela dica. Um abraço, Claudia

Neda disse...

Claudia
Descobri seu blog por conta do artigo que vc escreveu para o NY with kids. O assunto do bilinguismo me interessa muito, em parte por que venho de uma família de várias gerações bilingues, inclusive eu. Então tenho comigo não só a experiência que eu mesma vivi, como a de minha mãe e a dos meus avós. Também tenho as histórias da família e os motivos que muitos hoje já não são bilingues. Explico: Sou filha de uma argentina com o brasileiro. Mas minha mãe é filha de norueguesa com um argentino inglês/alemão. Meus dois avós maternos vem de lares multilingues. Minha avó, para não esquecer o noruegues, falava em noruegues com as filhas, tanto que minha mãe e minha tia só aprenderam o espanhol quando começaram na escola. Meu avô falava com elas em inglês. A minha-tia avó, que morou na Argentina e teve filhos argentinos, voltou para a noruega no pós-guerra. Durante algum tempo tentou manter o espanhol como o idioma de casa, mas com o tempo percebeu que isso gerava preconceito. Imagina, uma noruega pobre logo depois da segunda guerra mundial, com que cara não olhavam a um imigrante (mesmo que fosse um norueguês que voltou pra casa). Já a família do meu avó, ele e as irmãs, decidiram não passar adiante o alemão por receio do que isso pudesse acarratar para os filhos.
Minha mãe, claro, fala e escreve norueguês muito bem, mas é um norueguês de antes da primeira guerra mundial. Um norueguês que nem o Aftenposten usa mais.
Com as duas filhas mais velhas minha mãe falou muito em norueguês e espanhol, mas ai a gente começou na escola, ela aprendeu o português e em casa o idioma passou a ser o português. A verdade é que com as filhas, minha mãe ainda fala em espanhol, mas nós, respondemos sempre em português. Ela e meu pai, se falaram em inglês durante algum tempo, mas hoje é o português.
A vida me trouxe para a Argentina, e hoje vejo meu filho, de 4 anos, se tornar bilingue numa rapidez assustadora. È maravilhoso ver como ele processa as informações, a lógica ilógica da relação entre o português e o espanhol, a felicidade dele em descobrir como se comunicar verbalmente com as outras crianças. Um processo que eu só senti na pele na adolescencia, quando morei na Noruega de intercambio, e sei que não é a mesma coisa.
Bjs

Claudia Storvik disse...

Nossa, Neda, que história! Fico super feliz que voce tenha descoberto o meu blog. O que você conta tem vários elementos interessantes com relação ao multilinguismo, desde o aprendizado do idioma fora do país onde ele é falado, histórias de imigração e retorno às origens, o isolamento do falante que vive no exterior da evolução da língua no país onde ela é falada, preconceito, transmissão da língua aos filhos pela segunda geração fora do país de origem, como a dificuldade aumenta na transmissão de uma segunda língua ao segundo ou terceiro filho, e por aí afora. Também é interessante notar sua segurança com relação à educação bilíngue do seu filho. Aqui em casa adoramos saber da conexão norueguesa. Espero que continue seguindo o blog e fazendo comentários. Hilsen! Claudia

Luciana disse...

Que história incrível! Fiquei arrepiada de me imaginar encontrando com alguém que fala um português antigo... realmente deve ter sido fascinante pras pessoas que cruzaram o caminho do seu pai, e também pra ele, perceber que haviam tantas palavras que ele não se dava conta que existia. Eu também já tinha pensado muito nesse "congelamento" do nosso português enquanto vivemos em um país estrangeiro. Hoje em dia eu escrevo um blog sobre maternidade e às vezes uso determinadas palavras que nem eu mesma sei se ainda são muito usadas no Brasil. Apesar do contato frequente por skype e visitas ao país, percebo que a lingua evolui muito rápido, novas palavras, expressões e girias são criadas a cada dia e cabe a nós estarmos atentos a estas mudanças sim.

Bacana seu post.

Abraços,

Luciana

Claudia Storvik disse...

Oi Luciana, obrigada pelo comentário. Pois é, temos que nos atualizar. Com a mãe da Neda, que comentou acima, aconteceu a mesma coisa: ela fala o norueguês usado na Noruega antes da Primeira Guerra! No Brasil, especialmente, a língua evolui muito rápido. Vou escrever sobre isso num post futuro - tenho algumas colinhas prá vocês. Já passei no seu blog várias vezes – eu e minha filha adoramos seus desenhos! Um abraço, Claudia

Ana Passos disse...

Muito interessante essa história, Cláudia! É para reforçar que a língua é um organismo vivo e evolui mesmo com o tempo, com a região e outros fatores. Meu futuro marido é polonês, tive muito contato com a língua polonesa e quando não entendia muito de bilinguismo, ficava preocupada em como meus filhos, no futuro, aprenderiam duas línguas totalmente diferentes. Crianças expostas a duas línguas desde o nascimento não tendem a confundir as línguas. E se houver essa confusão, é só por pequeno espaço de tempo. Meus filhos serão multilíngues, como a sua. Desde já, combinamos que eu falarei português com as crianças, meu marido falará polonês e como nos comunicamos (eu e meu noivo) em inglês, a criança acabará aprendendo, talvez um pouco mais tarde, o inglês. E por fim, só para não deixar passar em branco: a Polônia é um país encantador! Parabéns pelo blog!

Claudia Storvik disse...

Ola Ana, obrigada pelos comentarios. Seus filhos viverao no mesmo tipo de situacao linguistica que minha filha. Se voces perseverarem no uso da lingua materna de cada um eles vao ser trilingues com certeza. Boa sorte! Um abraco, Claudia

Lamartine Biao Oberg disse...

Ola Claudia,
Criei meus filhos e consegui com muito custo transmitir para eles, a minha língua e minha cultura. Hoje, eles transmitem para os meus netos. Entre eles, já há dois professores. Minha filha é professora de francês língua estrangeira e meu filho mais novo, é professor de chinês, japonês e coreano.
Como legado, deixo dois livros que co escrevi"Gramática Ativa 1 e 2 - versão brasileira, editados em Portugal. Além disse, h0ß para todos os brasileiros que moram pelo mundo afora, hán meu portal www.biaobresil.com - rubrica " Grammaire portugaise" - explicações gramaticais grátis, sobre a gramática portuguesa - versão brasileira.

Unknown disse...

Lamartine!
Dou aula de português como curso universitário aqui na Inglaterra e usamos o Gramática Ativa!!! Que mundo pequeno! Vou já dar uma olhada no seu site.
Obrigada e um abraço.
Manuela

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