segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Entrevista sobre educação bilíngue

Desde que comecei a escrever este blog conheci muita gente interessante mundo afora, especialmente mães brasileiras criando filhos bilíngues. Uma dessas mães, a Dani do Mamães na Itália, me entrevistou recentemente para o seu blog. Achei o resultado bem informativo, pois imagino que muitos pais possam ter as mesmas dúvidas que a Dani, e portanto decidi reproduzir a entrevista aqui em Filhos bilíngues também. Espero que gostem.


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Esta primeira pergunta pode parecer um tanto tola, mas acredito que muitas pessoas não têm idéia do que realmente é bilinguismo, portanto, como você definiria bilinguismo e  multilinguismo?

A pergunta não é tola, absolutamente, até porque não existe uma definição de bilinguismo universalmente aceita. Eu pessoalmente defino bilinguismo como a habilidade de falar fluentemente duas línguas.  “Fluentemente” é um termo relativo, que a meu ver significa falar o suficiente para se comunicar de uma maneira competente e natural, em que a conversação “flui”. Na verdade acho que fluência tem mais a ver com o fato de a pessoa se comunicar com seguraça, mesmo que cometa erros. Há pessoas que falam duas línguas como se fossem falantes nativas, como minha filha com português e inglês, e outras que, apesar de terem sotaque e cometerem erros graves, eu também consideraria fluentes. A habilidade de ler e escrever nas respectivas línguas não é essencial para definir uma pessoa como bilíngue.  No blog trato principlamente do bilinguismo infantil, que traz inúmeras vantagens, e que é um presente dos pais para os filhos, pois não envolve esforço especial algum por parte da criança.  Multilinguismo é um termo mais amplo, que uso para cobrir bilinguismo, trilinguismo (habilidade de falar três línguas) e poliglotismo (habilidade de falar quatro ou mais línguas).

Você divide os pais de filhos bilíngues em 3 categorias:  1. tanto o pai quanto a mãe são brasileiros, ou falam português fluentemente, e português é a única língua falada em casa;  2. somente um dos pais fala português, enquanto que o outro fala a língua do país de residência;  3. um dos pais fala português e o outro fala um terceiro idioma, que não é o do país de residência. No primeiro caso, você diz que é mais fácil introduzir o filho no mundo do bilinguismo, já que os pais falam português em casa e na rua o filho aprenderia por imersão. No entanto, qual conselho você daria para aqueles pais que acabam caindo na “Síndrome Passione”? Uso essa expressão em referência à novela Passione da Globo, em que alguns personagens italianos falam também português, mas tudo misturado em uma única frase. Entende-se o que eles querem dizer, mas eles acabam formando uma terceira língua que não é nem o português, nem o italiano. Às vezes parece inevitável introduzir alguns termos da língua do país no cotidiano dentro do lar - isso gera muita confusão para o aprendizado da criança?

Um adulto só pode ensinar uma criança a falar bem uma língua se ele mesmo a falar corretamente. Ou seja, se o adulto mistura as línguas a criança também vai misturar. Quando estão aprendendo a falar mais de um idioma os pequenos sempre misturam um pouco no princípio, mas quando os adultos falam suas respectivas línguas corretamente a criança logo aprende a separá-las. Um certo grau de transferência de vocabulário de uma língua para outra às vezes é inevitável sim, como palavras que não têm uma tradução fácil para o outro idioma, mas na medida do possível isso deve ser evitado, para não confundir a criança. Se você quer que seu filho seja bilíngue, esforce-se para falar em bom português com ele.

Ainda no caso de pais brasileiros no exterior, você fala sobre a valorização do português. Quais estratégias são aconselhadas?

Basicamente a criança tem que associar o idioma a coisas que ela gosta e entender que precisa usar a língua para ter acesso a elas. Estratégias que menciono no blog vão desde viagens ao Brasil até frequentar escolinhas de português no país de residência.

Como se dariam essas estratégias no caso de pais que estão nas categorias 2 e 3?

A meu ver não há diferença. Se apenas um dos pais fala português ele deve desenvolver as estratégias da mesma forma que faria se os dois falassem a língua.

Em seus textos você fala sobre a dificuldade de criar um filho bilíngue quando os pais têm idiomas maternos diferentes ou quando um deles fala uma língua que não é a do país de residência. Neste caso é de extrema importância criar uma rotina linguística, haver apoio e consciência do casal na educação bilíngue do filho. Você poderia compartilhar um pouco da sua experiência prática na criação de sua filha? Quais foram os momentos marcantes? Houve momentos de desânimo? Existiu apoio ou algum empecilho por parte de familiares quanto a sua filha aprender o norueguês ou o português?

Sempre tivemos apoio de nossas famílias no Brasil e na Noruega para ensinar as duas línguas para nossa filha, pois de outra forma ela não seria capaz de se comunicar com os parentes.  Quanto a como as coisas aconteceram na prática, há uma palavra que resume tudo: naturalmente. Nunca forçamos nada. Sempre falei português com ela porque era o que sentia ser natural, e sempre conseguimos expô-la naturalmente ao norueguês o suficiente para que ela ganhasse competência também nessa língua.  Como os vários idiomas foram sempre apenas parte do cenário de nossa história, não consigo pensar em momentos marcantes ou de desânimo relacionados especificamente ao desenvolvimento linguístico de nossa filha.

Você percebeu alguma diferença em sua filha em relação as crianças da mesma idade na época de começar a falar?

Ela começou a falar cedo, mas as três línguas se desenvolveram em velocidades bem distintas. De qualquer forma, sempre tentei evitar comparações, porque com crianças multilíngues as coisas acontecem de um modo diferente das crianças monolíngues.

Segundo a reportagem da Veja que você indicou, o ideal é alfabetizar o filho bilíngue em cada um dos idiomas em épocas diferentes para não cair no erro da salada mista de línguas. Como foi sua experiência na alfabetização do português-inglês  com sua filha?

Não sou professora ou especialista em alfabetização, e nem pretendo dar orientação sobre esse assunto, mas no caso de nossa filha ela estava totalmente alfabetizada em inglês quando começou - sozinha - a ler e escrever em português. Ainda não escrevi sobre isso no blog, mas foi fantástico. Claro que ela tinha tido muito estímulo até ali, mas nunca tinha sido alfabetizada formalmente.  Com base puramente no meu instinto e na minha experiência prática, não vejo vantagem alguma em alfabetizar uma criança simultaneamente em duas línguas, nem razão de ter pressa em alfabetizar numa segunda língua. O importante é que na infância a criança ganhe fluência oral nos vários idiomas, aproveitando a facilidade natural que tem nesta idade.

Por que é importante conscientizar a criança do valor do bilinguismo? Quais erros não cometer?

A meu ver isso ajuda a desenvolver ainda mais as vantagens cognitivas que o blinguismo dá a ela, pois a criança passa a entender melhor os mecanismos envolvidos no processo. Ela vai se interessar mais por outras línguas também. Seria um grande erro permitir que a criança associe o bilinguismo a fatores negativos, como pobreza ou discriminação.

Pela sua experiência, você acha que educar uma criança em línguas irmãs do português, como italiano, espanhol, francês, seria um problema? Principalmente no caso da alfabetização, onde a escrita de algumas palavras é muito semelhante e a troca de uma ou outra letra pode ser um erro grosseiro, como o caso da palavra “próximo” em português e “prossimo” em italiano.

Não tenho experiência nesse sentido mas imagino que deva haver problemas, sim. Especialmente nesses casos, meu instinto diz que seria melhor esperar ainda mais para alfabetizar na segunda língua, para permitir à criança aprender a escrever bem num dos idiomas primeiro e só então introduzir o segundo. Mas, como disse, não sou especialista nessa área.

Você gostaria de deixar algum incentivo para os pais que estão nessa busca do bilinguismo?

Bilinguismo infantil é algo natural, que “acontece” com a criança se as circunstâncias forem favoráveis. A função dos pais é tentar criar essas circunstâncias. Nunca compare seu filho com outras crianças nem dê ouvidos a críticas de amigos ou professores. Toda criança vai aprender a língua do país onde vive mais cedo ou mais tarde. Se você conseguir dar a seu filho um mínimo de intimidade com outro idioma você vai estar lhe fazendo um grande favor  - mesmo que o resultado não seja perfeito, pois na prática ele raramente o é

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Atividades para desenvolver a linguagem das crianças

A linguagem tem um papel importante no desenvolvimento cognitivo e social das crianças, portanto os pais devem estimular a capacidade de seus filhos de fazer uso dela. Para que esse processo seja bem sucedido, o ideal é que haja um ambiente linguisticamente rico em casa.

Adicionei uma pequena lista de links ao blog, que pode ajudar na criação de um meio mais estimulante para o desenvolvimento da linguagem dos pequenosOs sites são todos educativos, mas com conteúdos variados, direcionados a crianças de praticamente todas as faixas etárias. Todos foram considerados com cuidado antes de serem colocados na lista.

Dependendo da idade da criança, em muitos desses sites os pais podem deixá-la navegar livremente, descobrindo jogos, atividades, vídeos, músicas e curiosidades - tudo em português, o que com certeza vai aumentar seu interesse pela língua. No entanto, recomendo que os pais naveguem os sites antes de dar acesso a seus filhos, para se familiarizar com seus conteúdos e poder desenvolver e sugerir atividades, e ao mesmo tempo se satisfazer de que o material é apropriado para a fase de desenvolvimento em que se encontra a criança.

Sempre que possível os pais devem acompanhar o processo e adicionar a ele um elemento de interatividade, conversando sobre a atividade que está sendo desenvolvida, notando detalhes, dando explicações, fazendo perguntas, e assim por diante.

Parte das matérias disponíveis em alguns dos sites é direcionada especificamente aos pais, como artigos e dicas. Há também muito material que os pais podem imprimir e usar para interagir com a criança longe do computador, como histórias para serem lidas para ela ou por ela, e outras atividades que auxiliam no desenvolvimento da linguagem oral, da escrita ou simplesmente da consciência linguística.

Divirtam-se!

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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Bilinguismo – De volta ao futuro

Uma história real de bilinguismo, da época em que o fluxo migratório era na outra direção.

Meus avós paternos eram poloneses que emigraram para o Brasil no início do século 20. Não conheci meu avô, mas minha avó falava português com um forte sotaque.



Meu pai foi uma criança bilíngue. Ele nasceu no Brasil e cresceu numa colônia polonesa no Paraná, onde todos falavam apenas polonês. Até entrar na escola, aos 7 anos, ele não falava uma palavra sequer de português. Mesmo sem conhecimento algum da língua que iria usar pelo resto da vida, meu pai foi para a escola feliz e satisfeito e após pouco tempo se tornou um dos melhoes alunos da turma, sempre muito aplicado (e olha que naquele tempo os professores simplesmente colocavam as crianças que não falavam português na última fila e deixavam que se virassem). Mudou-se depois para Curitiba, formou-se em Direito e Jornalismo, deu aulas de português numa faculdade durante muitos anos, fundou um jornal e teve uma carreira brilhante como advogado. Depois de deixar a colônia teve apenas contatos esporádicos com a língua polonesa, mas continuou fluente.
  
A história de meu pai é interessante porque ele aprendeu polonês no Brasil, numa colônia de imigrantes que tinham saído da Polônia no início do século passado e não tinham mais tido contato com seu país de origem. Consequentemente, essas pessoas ensinaram a seus filhos nascidos no Brasil o polonês falado na Polônia no início do século 20; os filhos que seguiram morando na colônia por sua vez ensinaram a seus rebentos a língua que haviam aprendido com os pais, e assim por diante.

Mais de 70 anos depois da ida desses imigrantes para o Brasil, meu pai resolveu finalmente conhecer a Polônia. Eu morava na Noruega na época, e meus pais vinham me visitar uma vez por ano. Numa dessas visitas estenderam a viagem até a Polônia e vários outros países do leste Europeu.

Durante a estadia na Polônia meu pai teve uma experiência muito interessante. Como ele falava polonês fluentemente, esta foi a língua usada durante toda a viagem. Mas muito rapidamente ele percebeu que algo não estava certo.

Apesar de não ter consciência disso, meu pai falava um polonês antigo, cheio de palavras que tinham caído em desuso há muito tempo, e as pessoas estavam achando aquilo extraordinário. Era como se alguém chegasse em São Paulo hoje falando o português usado em 1920. Da mesma forma, inúmeras palavras haviam sido incorporadas à língua polonesa, as quais meu pai desconhecia totalmente. Outra coisa incrível: só durante a estadia na Polônia ele se deu conta de que não sabia que palavras usar em polonês pra se referir a certas coisas com as quais não tinha tido contato na infância, como por exemplo televisão, pois na época em que aprendera polonês televisões simplesmente não existiam. E nessa lista entravam muitas outras palavras como computador, aeroporto, e por aí afora.

Sou fascinada por essa história porque acho que contém uma lição importante para nós que somos o principal ponto de contato entre a língua de nosso país de origem e nossos filhos. Línguas têm vida, evoluem, mudam – e cada vez mais rápido. Precisamos entender esse mecanismo e ficar atentos para que o português seja sempre um elemento dinâmico e significativo dentro do mundo em que vivem nossos filhos.







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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Crianças bilíngues e o valor do bilinguismo

No meu último post falei sobre o valor das línguas, um ingrediente essencial do sucesso do bilinguismo. No entanto, a fórmula do sucesso tem mais um ingrediente: a valorização do bilinguismo pela própria criança.

É importante que uma criança bilíngue tenha ela mesma consciência dos benefícios do bilinguismo. Esses benefícios são muitos, e podemos mencionar aqui alguns exemplos.

O bilinguismo infantil traz certas vantagens cognitivas, ou seja, ele promove o desenvolvimento intelectual da criança de várias maneiras, como por exemplo desenvolvendo o entendimento abstrato e a capacidade de criar novos conceitos. A criança tende a ser mais criativa, tem melhor desempenho acadêmico, maior habilidade em atividades que envolvam matemática, lógica e comunicação. Aprender mais de uma língua na infância também facilita o aprendizado de outros idiomas, pois desenvolve na criança a consciência da estrutura e do funcionamento das línguas. Há também benefícios para o seu vocabulário, fonologia, sintaxe e leitura.




Quando seu filho tiver um pouquinho de maturidade, tente passar para ele a idéia de que o bilinguismo lhe traz grandes vantagens e que ele é privilegiado por ter a oportunidade de aprender dois (ou mais) idiomas e conhecer duas (ou mais) culturas de uma maneira tão natural. Explique que saber português além do idioma local vai ajudar em várias matérias na escola e que vai fazer com que seja muito mais fácil aprender outras línguas no futuro. Fale de forma positiva do fato de certas pessoas serem multilíngues, especialmente as famosas e bem-sucedidas.

Enfatize as vantagens de falar uma língua latina, aponte as similaridades com outros idiomas, como italiano, francês e espanhol. Alguns anos atrás minha filha chegou da escola um dia e pediu para me mostrar uma coisa que tinha descoberto. A sua turma estava tendo aulas sobre dinossauros. Naquele dia eles tinham aprendido sobre o Oviraptor, que roubava os ovos dos outros dinossauros, e ela tinha entendido que era exatamente esse o significado do nome dele:  “Mamãe, o nome dele quer dizer ovo/raptar, roubar ovos!!”. Ela tinha acabado de entender que palavras em várias línguas têm raiz latina, que geralmente é igual à raiz da palavra em português. Cosequentemente ela desenvolveu um vocabulário em inglês muito mais sofisticado que o de seus amiguinhos monolíngues. Hoje ela é capaz de deduzir o significado de palavras que para a grande maioria das crianças inglesas da idade dela são um mistério, e tem total consciência da vantagem de ter essa habilidade, que é decorrente do fato de ela ser fluente em português.

Todas as vezes que viajamos a países de língua latina eu peço a minha filha que preste atenção e veja se entende alguma coisa do que as pessoas dizem. Desde pequena ela sempre consegue pegar uma palavra aqui, outra ali. Também procuro ensinar algumas expressões na língua local, como “até logo” e “obrigada”, que geralmente ela passa a usar com sucesso durante a viagem. Ela não vê línguas estrangeiras como barreiras; muito pelo contrário, tem interesse em aprendê-las, pois tem consciência das vantagens do multilinguismo. Eu demonstro muito orgulho pelo bom ouvido dela para línguas e explico que isso é consequência de ela já ser trilíngue.

Sempre demonstre orgulho do bilinguismo de seu filho, mas evite duas coisas:
1.  Não peça que seu filho demonstre suas habilidades para outras pessoas. Nunca.
2.  Não use seu filho como intérprete, mesmo que seu inglês não seja muito bom. Isso pode fazer com que ele o veja como incapaz. 

Internacionalismo

Comunicação é crucial para a valorização e compreensão de outras culturas. Falar mais de um idioma permite à criança entender melhor o que eu chamo de internacionalismo (não gosto de usar a palavra “multiculturalismo”, pois o termo foi sequestrado pelo politicamente correto).  A criança vai perceber que o mundo é um lugar onde existem muitos países e que em cada um desses países as pessoas têm linguas, tradições e costumes próprios, e o que parece ser diferente para uma pessoa na Inglaterra pode ser muito normal para alguém em outro país. No mundo globalizado em que vivemos, existe uma enorme vantagem em entender essas diferenças, e a criança deve estar ciente disso. A pessoa que tem raízes internacionais e conhece o estilo de vida de diversos países entende essas diferenças e pode desfrutar das coisas boas de várias culturas.  

Os pais devem evitar criticar os costumes do país de residência, pois é bom para a criança ver que apesar de serem estrangeiros eles estão bem adaptados ao estilo de vida local, ou seja, que o internacionalismo funciona. Demonstre sempre tolerância e respeito às diferenças - as crianças aprendem principalmente pelo exemplo. Isso pode ajudar a evitar que depois de uma certa idade seu filho rejeite suas raízes internacionais e passe a falar apenas a língua do país de residência, como ocorre com alguns adolescentes

Também é importante mencionar constantemente exemplos positivos de pessoas famosas, bem sucedidas ou que a criança admire que também tenham uma herança internacional. Por exemplo, o Vice-Primeiro Ministro britânico, Nick Clegg, é somente ¼ inglês: sua mãe é holandesa nascida na Indonésia e seu pai também é filho de estrangeiros. Nick cresceu num lar bilíngue, com o pai falando inglês e a mãe holandês. Hoje ele fala inglês, holandês, espanhol, francês e alemão – e é casado com uma espanhola.  Preste atenção, pesquise. Quando encontrar um bom exemplo de internacionalismo não deixe de mencionar para seu filho. Faça isso já na próxima vez que Nick Clegg aparecer na televisão.

Posts futuros

As sugestões neste e no post Crianças bilíngues e o valor das línguas obviamente não são exaustivas. Artigos futuros vão trazer mais idéias de formas de se valorizar a língua portuguesa e o bilinguismo, mas as sugestões que estão nestes dois posts provavelmente são um excelente começo.


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Veja também Crianças bilíngues e o valor das línguas



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terça-feira, 9 de novembro de 2010

Crianças bilíngues e o valor das línguas

Um ingrediente essencial do sucesso na transmissão de uma língua para uma criança é o valor dessa língua para ela, ou seja, os benefícios que a criança percebe que o idioma traz, as pessoas e culturas a que dá acesso.

Quando estamos tentando ensinar a nossos rebentos um idioma que não é o falado no país onde vivemos, o ideal é que a criança veja essa “outra” língua como uma ferramenta para acessar uma parte no mínimo interessante de sua vida, e não apenas como “uma língua que a mamãe (ou o papai) fala”.  Quando expostas a mais de um idioma, crianças percebem muito rapidamente o valor de cada um deles e decidem se o esforço de usá-los vale a pena ou não. Como elas sempre fazem o que é mais fácil, se inglês cobrir todas as situações que lhes interessam não haverá nenhum incentivo para falar outra língua.



Então de alguma forma precisamos mostrar a nossos filhos que a língua portuguesa tem um valor especial, e que há muitos benefícios em saber falá-la. Mas como fazer isso?

O primeiro ponto importante é que pra ser efetivo, o processo de valorização da língua tem que se tornar parte da rotina familiar desde muito cedo, e deve ser contínuo durante toda a infância e parte da adolescência.

A tarefa normalmente é mais fácil quando tanto o pai quanto a mãe são brasileiros.  No entanto, o fato de ambos serem brasileiros por si só não é garantia de que a criança queira seguir falando português depois de entrar na escola se ela formar um círculo social composto apenas de pessoas que falam a língua do país de residência. Quando atingem uma certa idade, algumas crianças se recusam a continuar falando a língua usada em casa, mesmo se usada por ambos os pais, porque percebem que isso as torna diferentes dos outros à sua volta. Isso geralmente ocorre quando a língua não é suficientemente valorizada.

Valorização da linguagem em si

O ideal é que haja um ambiente linguisticamente rico em casa, com boa música, livros e muitas oportunidades para se sentar e conversar demoradamente com a criança. Leia MUITO para seu filho, desenvolvendo assim sua compreensão e seu vocabulário.

Pesquisas demonstram que um ambiente linguisticamente rico em casa facilita muito a alfabetização da criança, mesmo que esta ocorra em outra língua. Ou seja, se os livros, conversas, etc., aos quais você expõe seu filho em casa são em português, e seu filho começa a ser alfabetizado na escola em inglês, a experiência linguística doméstica em português vai ser um fator positivo para a alfabetização em inglês. Esta foi exatamente a experiência da nossa família. Se a criança valoriza comunicação em geral, vai ter mais interesse e facilidade em desenvolver atividades relacionadas à linguagem em qualquer idioma.

Algumas sugestões práticas para aumentar o valor da língua portuguesa

Lembre-se que aqui estamos tratando de estratégias para a criança se interessar pela língua portuguesa, não para ela aprendê-la. As duas coisas são um pouco difíceis de separar, pois em geral o aprendizado ocorre naturalmente durante o processo de valorização, mas a pergunta aqui é: o que devo fazer para que meu filho queira falar português? Como posso mostrar a ele que a língua tem um valor especial?

Uma ferramenta muito poderosa para valorização do português é a televisão brasileira, tanto que planejo tratar exclusivamente deste tema em um post futuro. De qualquer forma, e por mais que alguns especialistas não gostem da idéia, filmes e desenhos em português ajudam sim, não só a aprender a língua, mas também a valorizá-la. Por exemplo, se o desenho animado que a criança adora só passa em português, ou se seu personagem favorito fala português nos filmes, aí está um grande incentivo para ela se interessar pela língua.

Contato com parentes e amigos no Brasil é absolutamente essencial, desde a mais tenra idade. A língua deve ser associada a pessoas que a crianca gosta e quanto mais pessoas melhor. Incentive os avós, tios, etc., a falar apenas em português com seu filho, mesmo que eles saibam falar a língua do seu país de residência. Receba o maior número possível de hóspedes brasileiros e peça que mesmo estando em seu país de residência eles continuem falando apenas em português com você e seu filho. Use skype ou outra forma de vídeo-link para seu filho conversar constantemente com parentes e amigos no Brasil. Comunicação com a família na Noruega foi a força motora da motivação da nossa filha para aprender norueguês, pois sua avó, tios-avós e tios norueguese não falam inglês.

Como a língua deve ser associada a pessoas que a criança gosta, se você precisa contratar uma babá, o ideal é contratar uma brasileira, e dar instruções claras para que fale apenas português com seu filho.

Vá ao Brasil com seu filho sempre que puder e fique o maior tempo possível. Se seu filho ainda não está na escola e você tem flexibilidade de tirar férias em qualquer época, pode se valer de promoções aéreas e viajar por um preço bem reduzido. Antes de minha filha entrar na escola íamos as duas ao Brasil geralmente duas vezes por ano. É importantíssimo para a criança conhecer bem esse “outro mundo”, onde absolutamente tudo acontece em português. Isso também vai moldar a aptidão multicultural do seu filho e estreitar os laços com a familia no Brasil.

As escolinhas e grupos de pais brasileiros no exterior também têm um papel muito importante no processo de valorização da língua, conforme explicado em detalhe no post O papel das escolinhas no aprendizado de português na infância. Se você não tem um grupo perto de onde mora, tente conhecer brasileiros na sua região, para que seu filho tenha contato com outras pessoas que também moram no seu país de residência e falam português.

Procure maneiras de seu filho ter contato com cultura brasileira na sua cidade. Londres oferece uma variedade de oportunidades: churrascarias, workshops de samba, capoeira, exposições e shows de artistas brasileiros, etc. Participe de promoções organizadas pela comunidade brasileira.

Adolescentes

As estratégias sugeridas acima se aplicam principalmente a crianças mais novas, mas os pais devem também continuar vigilantes e seguir estimulando os filhos durante a adolescência, uma época em que o processo de valorização deve render frutos, pois na adolescência muitas crianças deixam de falar um idioma aprendido na infância. Não baixe a guarda! A melhor tática nessa fase, além de seguir visitando o Brasil com frequência, é incentivar seu filho a ter muito contato com pessoas da mesma idade que moram no Brasil. Comunicação via internet, partilha de músicas, vídeos e outras novidades de seus respectivos países são ótimas maneiras de sustentar o interesse da criança pela cultura e estilo de vida do Brasil – e consequentemente pela língua portuguesa.

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A Torre de Babel é aqui

Que língua cada um dos pais vai falar com a criança? Acidentes de percurso podem acontecer até que a fórmula seja encontrada.  



A rotina de nossa família até nossa filha fazer dois anos era que eu falava português e meu marido falava norueguês com ela - o famoso sistema “one parent, one language”. Como morávamos na Inglaterra e falávamos inglês entre nós, ela também estava exposta ao inglês.

Quando começou a falar, nossa filha escolhia uma língua para cada palavra, e seu vocabulário era uma mistura. Por exemplo, ela inicialmente dizia “bye-bye” somente em inglês, “melk” (leite) e “sko” (sapato) somente em norueguês e algumas outras palavras somente em português (como “cubicero” e “ione” – quem adivinhar o significado ganha um brinde). Às vezes as três línguas eram usadas na mesma frase. Mas como ela passava a maior parte do tempo comigo, seu vocábulario em português aumentou mais rapidamente que nas outras duas línguas, de forma que após alguns meses, quando nos dirigíamos a ela em nossas respectivas línguas, ela respondia predominantemente em português.

Quando  os filhos pequenos começam a falar português, um parceiro não falante do idioma pode sentir uma enorme motivação para finalmente estudar a língua, e pode tentar aprende-la com os filhos. Meu marido tinha exatamente esses planos quando nossa filha começou a se comunicar com ele em português. No entanto, o vocabulário de uma criança normalmente aumenta com tal velocidade que quando ela chega à idade de 2 anos já deixou o adulto muito para trás. No nosso caso as coisas não foram diferentes.

Nessa fase meu marido falava com nossa filha em norueguês, ela respondia em português, e ele tentava assimilar as palavras novas que ela usava. No entanto, o vocabulário dela aumentou tanto ao ponto de logo ele não entender mais o que ela dizia. Com o passar do tempo ela também desenvolveu um vocabulário razoável em inglês, então quando ela tinha pouco mais de dois anos meu marido passou a falar com ela em inglês ao invés de norueguês, pois assim ela respondia também em inglês e ele entendia o que ela dizia. Uma pena, mas nesse caso comunicação era obviamente mais importante que imersão.

Até hoje meu marido não fala português, mas tenho certeza que a essa altura ele entende o idioma muito bem. Quanto à minha filha e a língua norueguesa, durante a infância ela entendia muito, mas falava pouco. Continuamos expondo-a à lingua mesmo assim. Há uns 4 anos ela passou a falar cada vez mais e hoje, aos 12 anos, é bastante competente também nesse idioma, apesar de não ter a fluência de falante nativa que tem em português e inglês.

Finalmente, uma coisa muito importante deve ser notada: durante todo o processo meu marido nunca se queixou ou sugeriu que eu parasse de falar português com nossa filha. Ele sempre apoiou a educação trilíngue dela e sempre teve clara consciência das vantagens do multilinguismo. Ele é tão responsável quanto eu por nossa filha ter aprendido as três línguas na infância.

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O papel das escolinhas no aprendizado de português na infância

Muitos brasileiros residentes na Inglaterra procuram escolinhas de português para seus filhos por ter dificuldade em ensinar o idioma para eles em casa. No entanto, é importante que as famílias tenham expectativas realistas com relação às escolinhas e entendam a primazia do papel dos pais no aprendizado de uma língua durante a infância.   



Existe um ingrediente importantíssimo, talvez essencial, no sucesso da transmissão de uma língua para uma criança: o valor daquela língua para a criança. Por “valor” quero dizer os benefícios que a criança percebe que a língua traz, as portas que abre, as pessoas e culturas a que dá acesso. A criança tem que ver a língua como uma ferramenta para acessar uma parte no mínimo interessante de sua vida, e não apenas como “uma língua que a mamãe às vezes fala”. 

Não subestimem seus filhos. Quando expostos a mais de uma língua, na mais tenra idade eles já percebem muito bem o “valor” de cada uma dessas línguas e decidem se o esforço de falá-las vale a pena ou não. A criança vai sempre fazer o que for mais fácil. Se inglês cobrir todas as situações que interessam a ela, não haverá nenhum incentivo para falar outra língua.

É exatamente na formação desse “valor” que as escolinhas de português têm um papel importantíssimo. Nelas a criança vai conhecer outras pessoas que também falam aquela língua, vai provavelmente aprender fatos sobre os países onde a língua é falada. A escolinha vai ajudar a criança a entender melhor sua identidade como brasileira. De forma mais estruturada e com mais recursos do que uma única familia, vai proporcionar à criança uma aproximação com o Brasil que de outra forma talvez só fosse possível se ela pudesse efetivamente estar lá.

No entanto, quanto ao aprendizado da língua em si, a função das escolinhas tem que ser entendida de maneira realista, mais como uma forma de apoio do que como agente autosuficiente, ou seja, a escolinha sozinha dificilmente vai ensinar uma criança a falar português. O formato desses grupos, geralmente com duas horas de aula uma vez por semana, não constitui uma imersão suficiente na língua para ensinar uma criança a falá-la. É o equivalente das aulinhas semanais de inglês que algumas escolas oferecem para crianças em idade pré-escolar no Brasil. A criança vai aprender algumas palavras e frases, mas se esse for o único contato dela com o idioma, provavelmente não vai passar muito disso.  

Note-se, porém, a diferença entre essas escolinhas e as chamadas “escolas bilíngues”, tão em voga no Brasil. A proposta das escolas bilíngues é ensinar por imersão, expondo a criança a uma língua estrangeira de forma lúdica, durante várias horas por dia, cinco dias por semana. (Leia aqui reportagem da revista Veja sobre a proliferação de escolas bilíngues no Brasil
). 

Esta é de fato a maneira mais fácil de se aprender uma língua em idade pré-escolar: por imersão, através do contato natural e constante com ela. Por que nossa primeira língua é chamada de “língua materna”? Porque quem a “ensina” é a nossa mãe, ou alguém que cumpre a função de mãe, ou seja, alguém que tem um contato constante com a criança.

O aprendizado de uma língua de forma estruturada, em cursos formais, sem imersão, tem maior eficácia quando a criança já tem uma certa maturidade e já sabe ler e escrever em sua língua materna. Mesmo aí, o aprendizado vai exigir um esforço mais consciente e vai se dar através de um processo cognitivo diferente do que ocorre com aprendizado por imersão. (Consulte aqui a tabela compilada pela revista Veja contendo a opinião de especialistas sobre cuidados que devem ser tomados em cada faixa etária em relação à educação bilíngue).

A teoria na prática
Quando minha filha tinha 5 anos comecei a achar que ela se beneficiaria se pudesse se encontrar regularmente com outras crianças brasileiras e junto com elas desenvolvesse atividades que proporcionassem um maior contato com a cultura brasileira. Como na região onde morávamos não existia nenhum grupo, ajudei a fundar e por vários anos administrei (como voluntária) a Escola Brasileira de Bromley, que oferecia aulas de português e cultura brasileira para crianças.

Na escolinha havia muitos pais que faziam um grande sacrifício para levar os filhos às aulas aos sábados, mas que não falavam português com eles em casa regularmente. A maioria dos filhos desses pais frequentou a escolinha durante anos, mas infelizmente nunca chegou a falar português com alguma fluência. Já as crianças que falavam português em casa constantemente com pelo menos um dos pais, como minha filha, tiveram um excelente aproveitamento do ponto de vista linguístico, aumentando seu vocabulário e aprendendo estruturas gramaticais mais sofisticadas.

Acredito que todas essas crianças passaram a entender melhor as diferenças culturais entre Brasil e Reino Unido, aprenderam sobre cultura, geografia e história brasileiras. A língua portuguesa passou a ter um valor maior para todas elas, mas, apesar disso, para algumas faltou uma ferramenta importante para efetivamente aprender a falar o idioma durante a infância: a imersão, que deveria ter ocorrido em casa.

Existem muitas maneiras de aumentar o valor da língua portuguesa para nossos filhos. Apesar das escolinhas proporcionarem uma experiência extremamente positiva nesse sentido, o processo de valorização e aprendizado da língua na infância é contínuo, e para ser efetivo tem que se tornar parte da rotina familiar desde muito cedo, bem antes de se colocar a criança numa escolinha de português. 


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