sexta-feira, 11 de março de 2011

23 dicas sobre bilinguismo

As brasileiras Regina Camargo e Eliana Elias são especialistas em educação infantil e há muitos anos moram em São Francisco, nos Estados Unidos. Elas também são mães e lideram um grupo de pais que organiza atividades para incentivar o ensino de português para crianças na região onde vivem. Regina e Eliana escreveram um artigo excelente, que contém a lista mais completa de dicas práticas sobre educação de crianças bilíngues que já encontrei em língua portuguesa, e gentilmente autorizaram a reprodução do artigo aqui no blog. As ótimas dicas das duas educadoras portanto seguem abaixo. Boa leitura!

***

Brasil ou Brazil? Nossas crianças têm de escolher?

Por Regina Camargo e Eliana Elias

Muitos pais nos pedem sugestões práticas para continuarem a apoiar o desenvolvimento da língua portuguesa dentro de casa. A verdade é que existem muitas formas de se fazer isso, e nem todas as estratégias usadas serão bem sucedidas em todas as famílias. Temos que considerar várias diferenças: nível educacional da família, temperamento das pessoas envolvidas, línguas faladas por outros membros da família, etc. Porém, entendemos que a formação de uma identidade cultural sadia e o desenvolvimento de relacionamentos positivos dentro da família são fundamentais para qualquer aprendizado. Portanto, longe de criarmos uma lista completa, estaremos dividindo algumas sugestões que nos ajudaram na formação da nossa abordagem educativa.







1- Faça um esforço consciente - A perda da língua materna ocorre na maioria dos grupos de imigrantes. Quando a criança é cercada por uma língua dominante, ela tende a desenvolver a preferência pela língua falada na escola, na rua e nos meios de comunicação. Famílias de imigrantes que querem apoiar o desenvolvimento da língua materna têm de fazer um esforço consciente para que isso aconteça.

2- Cultive relacionamentos positivos - A língua não passa de um veículo para unir as pessoas. O ser humano nasce com o instinto natural de se comunicar, de compartilhar experiências com outros seres humanos. A base de todo aprendizado está no relacionamento. Relacionamentos positivos ajudam na formação de uma comunidade receptiva, que estimula a comunicação.

3- Mantenha a naturalidade - Muitos pais desistem de falar sua língua nativa quando seus filhos começam a responder na língua dominante. Outros se tornam militaristas, e forçam o uso do português dentro de casa, a ponto de transformarem as interações entre pais e filhos em algo extremamente negativo. O ideal é procurar um equilíbrio. A melhor forma de se cultivar a língua é criar um ambiente natural e positivo, onde nenhuma língua é proibida.

4- Crie um ambiente onde todos os membros da família possam conversar e trocar idéias - Muitos imigrantes levam uma vida muito corrida, sempre trabalhando muito. É preciso lembrar que a criação de rotinas familiares, como refeições, idas ao parque, passeios e eventos festivos formam a base da vida afetiva da criança. Temos que, deliberadamente, criar rituais onde os membros da comunidade possam achar oportunidades para comunicação diária.

5- Evite usar as crianças como intérpretes dos mais velhos - Crianças tendem a aprender a língua do país hospedeiro bem mais rapidamente que seus pais. Em muitas comunidades de imigrantes as crianças tornam-se tradutoras. Pesquisadores têm documentado os efeitos negativos que essas práticas, aparentemente inofensivas, têm na formação da identidade das crianças. Ter um papel de tamanha responsabilidade confunde a criança, que passa a ver os pais como incapazes. Essa mudança na hierarquia familiar traz problemas que são ainda mais visíveis nos adolescentes. Os pais que aprendem a língua dominante ou que procuram manter a hierarquia familiar intacta têm mais chance de manter um relacionamento sadio com seus filhos.

6- Crie oportunidades para a criação de projetos - Projetos simples, como pintar um quarto, fazer um bolo, escrever uma estória, costurar uma roupa ou confecionar um carrinho de madeira, proporcionam plataformas para desenvolvimento de vocabulário rico e um contexto de aprendizagem novo e cativante. Crianças amam um projeto!

7- Veja as crianças como fontes de inspiração - Observe as ‘paixões’ das crianças e incentive essas paixões. Futebol? Animais? Música? Quase todos os assuntos tornam-se ricas fontes de aprendizado.

8- Fique atento aos ‘erros’ - Tente não se tornar a ‘polícia linguística’ de seus filhos. A correção excessiva dos erros pode inibir o desenvolvimento natural da língua. Porém, fique atento aos erros. Eles podem ser fonte de informação interessante… uma das estratégias efetivamente usadas é repetir a frase corretamente durante a conversa. Outra é simplesmente ‘guardar’ o erro e falar sobre ele dentro de um outro contexto.

9- Crie um ambiente linguisticamente rico - Incentive boa música, livros e oportunidades para conversar. Leia! Leia! Leia! A força da leitura não pode ser minimizada. Livros desenvolvem o vocabulário, a capacidade de compreensão, o conhecimento geral e a criatividade.

10- Use um vocabulário variado e fuja das palavras comuns - O fato de estarmos morando fora do nosso país faz com que as fontes de inspiração linguísticas dos nossos filhos sejam limitadas. Por isso devemos fazer um esforço contínuo para darmos a eles a experiência de um vocabulário variado. Por exemplo: ao invés de dizer simplesmente “Que sorvete bom!”, exagere, diga “Esse sorvete está extremamente delicioso… nunca provei algo assim… um manjar dos Deuses!”.

11- Use gestos e repetições - A linguagem corporal tem um valor muito grande dentro da comunicação. Use e abuse de gestos para criar um contexto onde as palavras possam se encaixar normalmente. Se a criança não entender algo, evite a tradução. Mude as palavras, explique de outra forma. Use a tradução somente quando extremamente necessário.

12- Crie contextos diferentes e divertidos - Passeios, shows, brincadeiras e jogos são ótimas formas de estimular a imaginação e o uso da linguagem.

13- Estimule a formação de uma comunidade - Crianças e adolescentes precisam de ‘espelhos’ que reflitam suas realidades. A conexão com outras pessoas que desfrutam de experiências similares estimula a formação de uma identidade cultural sadia.

14- Demonstre interesse pela leitura e pela beleza da linguagem - Crianças imitam o comportamento dos pais. Seja expressivo sobre seu interesse pela beleza da língua portuguesa. Leia para seus filhos, leia com seus filhos e leia enquanto seus filhos estejam observando você.

15- Faça um investimento em materiais educativos - Evite entrar nas armadilhas da sociedade de consumo! Busque brinquedos educativos e reusáveis. O ato de brincar é importantíssimo para a formação cognitiva da criança.

16- Evite atividades passivas - Crianças que passam muitas horas na frente da televisão ou do computador perdem a chance de interagir ativamente com outras pessoas ou com materiais educativos.

17- Construa ‘pontes’ de entendimento entre a escola e a família - Mesmo as famílias que não falam a língua dominante devem desenvolver um papel ativo na escola. Procure formas de participar da vida escolar de seus filhos.

18- Cultive orgulho pela nossa cultura, língua e costumes - Nossa língua está intimamente conectada com nossa cultura.

19- Evite ser excessivamente patriótico - Um grande número das crianças brasileiras imigrantes não retornará ao Brasil. Viver com essa realidade é entender o papel que temos na formação de crianças que têm aptidão multicultural. É importante cultivarmos a apreciação por TODAS as culturas e línguas que nos cercam. E também importante não colocarmos a cultura hospedeira e a cultura brasileira em competição.

20- Fale abertamente sobre as diferenças culturais - Explicações simples como: “No Brasil as pessoas se cumprimentam com três beijinhos e aqui a gente aperta a mão.” São mais descritivas que julgamentos como: “No Brasil as pessoas são mais calorosas, aqui todo mundo é tão frio!”.

21- Fale sobre o processo de aprendizagem da língua, tornando-o consciente - O processo de desenvolver duas línguas é às vezes complicado. Conversando com as crianças sobre esse processo podemos ajudá-las a desenvolver ferramentas para que elas possam melhor enfrentar os desafios.

22- Evite usar o português como forma de chamar a atenção das crianças - Temos que procurar construir laços positivos com o português. Por isso, usar o português somente para corrigir o comportamento das crianças não é recomendável.

23- Procure manter laços com sua família brasileira - A tecnologia nos disponibiliza muitas formas de continuarmos a ter contato com nossas famílias no Brasil. Telefonemas, cartas, e-mails e vídeos se tornam influências poderosas na formação das crianças. Meus filhos, por exemplo, adoram receber vídeos dos tios, tias e primos. Nesses vídeos, alguns membros da família contam estórias, outros leêm livros e outros simplesmente mandam recados.

***

[O artigo acima foi publicado originalmente no site Contadores de Estórias]


21 comentários:

Keyla disse...

Claudia,
Adorei as dicas vou repassar no twitter, facebook e etc. Bjs

Stella - Alemaha disse...

Muito bom e útil o texto, também quero compartilhar com outras pessoas que vivem a mesma experiência de educar filhos em duas línguas, parabéns.

Dani disse...

Claudia, adorei a dicas. A 10, 20 e 23 sao excelentes.
bjao!

Mônica disse...

Que bom que existem pessoas que sentem prazer em dividir o talento que tem com aqueles que precisam. MUITO OBRIGADA!

Cíntia Anira disse...

Obrigada por compartilhar as enriquecedoras informações. Parabéns pelo blog! Abraços

Flavia disse...

uau!

Cadê o botão de curtir muuuuito?

Excelente artigo! obrigada por compartilhar

Verdadeira Italia disse...

Muito bom.Gostei mesmo.Dicas 100% uteis.

Seu blog é show demais.

Juliana Rastrello disse...

Adorei seu blog! Tem tanta informação importante! Indiquei você no meu, ok?
Obrigada e continue atualizando!

Bjos
Ju

Anônimo disse...

Olá Regina e Eliana, obrigada pelas dicas, muito bem colocadas e também com experiência na situação. Vivo fora do meu país também, e praticamente estou fazendo o que vcs dizem, como aprendendo a língua local, exagerando as vezes nos comentários e adjetivos. Percebo q minha filha está aprendendo tbm o português, mas a preferência é a língua daqui. Tenho um amigo q morou em outro país qdo criança, e apesar dele responder aos seus pais na língua local, seus pais nunca desistiram de falar com ele na língua materna. Isso o ajudou muito no futuro, pois ele foi morar no país dos seus pais, e ele desenvolveu a língua rapidamente.
Um abraço
Victoria

Anônimo disse...

Qual a experiencia qdo so a mae fala portugues e a a crianca tem necessidades especiais? E melhor falar a lingua que os dois pais dominam ate a crianca entender melhor?? Voces tem alguma pesquisa cientifica q fala disso?? Obrigada Bjs Leia

Claudia Storvik disse...

Ola Leia. Nao tenho experiencia nesse campo, mas seguem aqui alguns artigos que voce pode achar interessante. Um abraco, Claudia
http://www.earlyinterventionsupport.com/parentingtips/specialneeds/bilingualism.aspx
http://spanglishbaby.com/2012/10/how-to-raise-bilingual-kids-with-special-needs/
http://spanglishbaby.com/2011/08/the-surprising-effect-of-autism-on-my-kids-bilingualism/

Anônimo disse...

Olá! Obrigada pelas dicas. Sou casada com um Neozelandês e estamos morando no Brasil, depois de muitos anos fora. Temos dois filhos pequenos e estamos tentando cria-los bilíngues. Morávamos até o ano passado na NZ e nossa filha mais velha (de 3 anos) até então falava português e inglês. Desde que chegamos no Brasil ela bloqueou totalmente o inglês, e só fala português. Falamos com ela em inglês e ela responde em português. Claro que a vida dela acaba sendo em português (escola, amigas etc.) Muitas vezes eu acabo falando em português com ela também, pois quando outras pessoas estão juntos eu falo em português para que todos entendam (tenho familiares e amigos que não falam inglês). Meu filho tem 16 meses e está começando a balbuciar as primeiras palavras (mama, dada, ball). Minha preocupação é de que eu esteja confundindo as crianças, já que fico mudando de idioma com frequência. Quando estamos só nos em casa é tudo em inglês. Se alguém chega pulamos para o português... Todas as dicas serão apreciadíssimas!! Obrigada!

Anônimo disse...

Aloha, Muito obrigada pelas dicas eu venho tentando com meu filho ele fala as duas linguas em casa, porem nao gosta de falar em portugues com o pai ele acha que e uma lingua minha e dele apesar de meu marido falar o portugues tb.
O que vem ajudando muito no desenvolvimento do seu vocabulario e uma brincadeira que temos de "o que e o que e" meu filho vem criando situacoes novas com o seu cotidiano, outro dia ele chegou me perguntando o que o trem disse para a montanha eu disse nao sei e ele respondeu nada mae so apitou o que percebo e que isso vem fazemdo com que raciocine em portugues. Muito obrigada por compartilhar as dicas.

Maalali disse...

Olá Claúdia!! maravilha de texto. Irei compartilhar com toda certeza com minhas amigas que, assim como eu, moram na Alemanha.Tenho um filho de 4 anos que fala alemao e português. Só que há uns dias , ele comecou a se "rebelar" e dizer que nao quer mais falar o português, pois todos aqui falam alemao, inclusivo o pai nao fala português.Apesar de dizer que no quer mais, ele ainda assim só fala comigo em portugues, pois nos comunicamos assim desde que ele estava no meu ventre.Preciso urgentemente me preparar para as dificuldades que irao surgir e ficaria muito feliz se você pudesse me sugerir alguma leitura, de preferência em português, para que eu possa entender melhor como lidar com essas dificuldades. Muito obrigada desde já.
Beijos,
Maalali

Virginia Tavares disse...

Obrigada pelas dicas ! Sou avó de dois americanos (4 e 3 aninhos) e quando venho visita-los sempre procuro falar e ensina-los portugues. O de 4 anos sempre pede a traduçao para o ingles. Já o de 3 anos pronuncia o portugues divinamente. Adorei a matéria. Parabéns !

Virginia Tavares disse...

Excelente matéria ! Tenho netos (4 e 3 anos) americanos. Sempre que venho visita-los falo em portugues. O de 4 aninhos sempre pede a traduçao em inglês. O de 3 aninhos pronuncia perfeitamente as palavras. Ensino musicas, a orar e brincadeiras. Eles adoram ! Obrigada pelas dicas. Parabéns !

Sonia disse...

Obrigada! Vou deixar aquí uma entrada do meu blog sobre o meu filho corithiano :-) http://las3lenguasdemis2hijos-sonia.blogspot.com.es/2014/01/columnas-corinthianas.html

Anônimo disse...

Fiquei com vontade de imprimir as dicas e colá-las na geladeira! Estão ótimas!!!!

Deise Lima disse...

Ótima matéria! Gostaria de saber quando o filho é trilingue, vocês teriam alguma matéria para me indicar? Moro na Irlanda e o meu noivo é Francês e só coversamos em inglês. Obrigada

Tatiana disse...

Desde bem cedo: muito dvd da Turma da Mônica, Sítio do Pica-Pau Amarelo, do Castelo rá-tim-bum, muito vídeo de desenhos dublados em português - o som familiar tomando conta da casa, ecoando pelos quartos, acostumando os ouvidos, os olhos... E muita revistinha em quadrinhos e livros, e jogos pedagógicos em português (Coelho Sabido, Artur no Pré etc), falar no Skype com familiares... Assim, o português é familiar na fase pré-escolar e de alfabetização, e os irmãos usam a língua materna entre si, com a mãe, para brincar, brigar, fazer dengo e pedir chamego

Pablo Acevedo disse...

Amei o blog. Fço exatamente tudo que está descrito. Sou casada com um argentino e moro em Buenos Aires. Desde que estava grávida, minha linguagem sempre foi o português. O Leonardo tem 8 anos, fala perfeitamente os dois idiomas. Comigo não tem essa de português dentro de casa e castellano na rua. Sempre pensei: meu filho é o ser mais importante da minha vida, porque falar com ele meu idioma porta adentro, e porta afora trocar do nada? Penso que seria uma confusão desastrosa, e melhor ainda, que ele não aceita que eu fale uma mínima palavra em espanhol com ele. "Adoro". É certo que quando vem um amiguinho em casa, falo em português com ele, mas no mesmo momento traduzo o que falei prá outra criança, o que só acontece mais na hora do lanche. E como isso todos já se acostumaram que o Leo é filho de uma brasileira, que fala seu idioma pátrio de sua mãe. Em casa passa a mesma coisa, no mesmo assunto entre eu, ele e o pai, fala comigo português, vira pro pai e traduz a mesma palavra ou frase do determinado assunto, chega a ser divertido, porque um nunca pensa que um dia vai ter um filho estrangeiro, o que é uma experiência maravilhosa, pois aprendo muito com ele também. É muito legal essa diversidade, ajuda e muito na vida dele, porque vamos pro Brasil todos os anos, e não tem dificuldade alguma de se comunicar com as pessoas, sejam meus amigos ou familiares. Ele fala tão perfeito o português, que tem gente até que duvida que ele saiba falar em castellano. Parabéns pelo blog, maravilhosas dicas.

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