quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Adoção internacional e bilinguismo

Adoção internacional está se tornando cada vez mais comum, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. Mas o que acontece com o idioma materno de uma criança quando ela é adotada por um casal estrangeiro e vai morar num país onde sua língua não é falada?


Quando eu morava na Noruega, um dia fui contatada por uma assistente social, que me pediu para ajudá-la com relação a duas meninas baianas, irmãs de 6 e 8 anos, que haviam sido adotadas por um casal norueguês alguns meses antes.

Os funcionários do serviço de assistência social responsáveis por acompanhar o caso delas estavam preocupados porque as meninas pareciam não falar mais português nem entre si, e eles portanto queriam minha ajuda para que elas não perdessem a língua materna.  O plano era que eles me contratariam para passar duas horas por semana com as duas na minha casa, falando somente português e incentivando-as a fazer o mesmo. 

Aceitei ajudar e fui informada dos detalhes do caso: as duas meninas tinham sido colocadas num abrigo porque o pai e a mãe bebiam e elas tinham sido vítimas de abuso e maus tratos. Aparentemente elas tinham passado por poucas e boas antes de serem adotadas e se mudarem para a Noruega.

As tardes que passei com essas meninas foram muito estranhas. Elas chegavam na minha casa e não diziam uma palavra durante duas horas. Eu tentava entretê-las de várias maneiras, contava estórias, fazia perguntas, tentava desenvolver jogos e brincadeiras, mas nunca consegui fazer com que elas falassem ou interagissem comigo. Ao final de algumas semanas eu já não sabia se as meninas me entendiam quando eu falava português  com elas ou não. Meus relatórios para os assistentes sociais não podiam ser muito positivos, e depois de uns poucos meses eles desistiram da estratégia.

Psicologia infantil
De acordo com o Dr. Boris Gindis, um psicólogo infantil especializado em adoção internacional, a aquisição de uma segunda língua por crianças adotadas internacionalmente se dá de forma ‘subtrativa’ e não ‘aditiva’, ou seja, no porcesso de aprendizado da segunda língua a criança vai perdendo o domínio da primeira língua, que é finalmente substituída pela segunda. Ela aprende o novo idioma num contexto em que a primeira língua  não tem nenhuma utilidade ou relevância. Dr Gindis conta que uma das descobertas mais chocantes em seu trabalho com adoção internacional foi a rapidez com que as crianças adotadas perdem sua primeira língua. É comum uma criança  de 6 anos adotada internacionalmente perder praticamente toda a capacidade de se expressar em sua primeira língua nos três primeiros meses em seu novo país. Sua habilidade receptiva com relação ao idioma (compreensão) pode durar um pouco mais, mas desaparecerá totalmente dentro de 6 meses a um ano. Para uma criança  de 9 anos, que já tenha sido alfabetizada em sua língua  materna, o processo de perda da língua  pode levar um pouco mais de tempo, mas da mesma forma dentro de um ano a sua capacidade de se comunicar no seu idioma materno vai ter sido reduzida dramaticamente.  

Línguas são esquecidas se não forem usadas, mas existe um fator específico que faz com que essa perda se dê mais rapidamente no caso de crianças adotadas internacionalmente do que no caso de crianças de famílias de imigrantes: sua atitude negativa e sua reação emocional adversa com relação à língua materna. Instintivamente, durante minha experiência com as baianinhas adotadas pelos noruegueses, entendi que para elas a língua portuguesa representava um outro mundo, muito triste e sofrido, para o qual elas se recusavam a voltar, por meio da sua recusa de interagir comigo em português.

Alguns pais adotivos acham que devem manter o vínculo da criança com sua língua  materna, colocá-la em contato com a cultura de seu país de origem, e assim por diante. No entanto, Dr Gindis explica que muitas vezes essa pode não ser uma boa estratégia. Especialistas no tratamento de problemas causados por experiências traumáticas há muito identificaram a língua como uma desencadeadora poderosa de estresse pós-traumático. Algumas crianças chegam a entrar em pânico quando alguém se dirige a elas em sua língua materna. A língua é um elo importante entre o presente e o passado. Muitas crianças adotadas quando são um pouco mais velhas tiveram experiências traumáticas antes da adoção, como as minhas duas baianinhas. Para muitas dessas crianças, o abandono de sua língua materna pode ter um valor terapêutico. 

Não sei se o governo norueguês continua com uma política de tentar manter o primeiro idioma de crianças adotadas internacionalmente, mas minha modesta experiência me fez concluir que esse pode nem sempre ser o melhor caminho a seguir. 



Copyright © Claudia Storvik, 2011. All rights reserved.



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6 comentários:

Neda disse...

Claudia, durante alguns anos (e há MUITO tempo) trabalhei com uma organização norueguesa de adoção internacional. O que eu entendi quando perguntei sobre o assunto é que a família normalmente decidia (mas fiquei com a impressão de que era orientada) a estimular o contato a língua mãe bem como a cultura. No caso das irmãs eu acho que as preocupação foram maiores por que o normal (esperado) seria que entre elas usassem o português por algum tempo. Mas é como você falou, elas passaram por um trauma grande - convenhamos que nenhuma das crianças que vão para adoção internacional tiveram uma vida tranquila - então é natural que queiram apagar o passado todo, até o idioma que por vezes é a principal forma de agressão, mesmo nas instituições. Fico imaginando, as duas saídas da Bahia, recém chegadas na Noruega, tudo diferente ai, um dia, decidem que elas têm que ir para a casa de uma adulta passar umas horas... se fosse criança acho que também me fecharia.
Agora, acho a idéia boa. Dá a sensação de pertencer a algum lugar, coisa que algumas (espero que poucas) dessas crianças não vão sentir no exterior.
Bjs

Clarissa disse...

Oi Claudia, cheguei ao seu blog por acaso e estou devorando todos os seus posts. Sou brasileira, meu marido e alemao e nosso filho, Lucca, de sete meses, e canadense. Eu e meu marido somos fluentes em portugues,alemao e ingles e estamos seguindo a politica do "one language, one parent" com o nosso filho. Entre eu e meu marido revezamos , as vezes falamos ingles um com o outro e prioritariamente ele fala alemao e eu portugues.
Gostaria de pedir um imenso favor, sera que voce poderia sugerir livros sobre trilinguismo ? E extremamente dificil encontra-los aqui no Canada.
Um abraco, Clarissa (clariscarelli@yahoo.com)

Neda disse...

AH! Claudia! O fato de comentar muito por aqui é que seus posts são uma delicia e nossas histórias tem coisas em comum. Aqui eu encontro a teoria para aquilo que faço na pratica com meu filho e também aquilo que foi feito na prática comigo, com minha mãe, meus avós ... Vejo que a experiência pode ser uma delicia, mas sei que as vezes podem surgir traumas.
Beijos

Claudia Storvik disse...

Ola, Clarissa. Origada pelos comentarios. Livros sobre trilinguismo sao mesmo dificeis de encontrar em qualquer parte do mundo. Quando minha filha nasceu e comecei a pesquisar o tema, li muitos artigos sobre trilinguismo, inclusive mantive correspondencia com autores e pesquisadores, mas na epoca nao encontrei nenhum livro sobre trilinguismo que me ajudasse. A Bilingual Family Newsletter publicou muitos artigos interessantes sobre trilinguismo ao longo dos anos. Voce pode acessar o arquivo deles em http://www.bilingualfamilynewsletter.com/archives.php . Hoje ha mais livros sobre trilinguismo a venda do que ha 12 anos, mas quase todos sao muito academicos. Dois livros que podem ser uteis para voce e que voce pode comprar na Amazon do Canada sao Three Is a Crowd? Acquiring Portuguese in a Trilingual Environment, de Madalena Cruz-Ferreira e Growing up with Three Languages: Birth to Eleven, de Xiao-lei Wang. No entanto, livros sobre bilinguismo tambem sao muito uteis para familias criando filhos trilingues. Nao deixe de le-los - voce tem apenas que multiplicar as dicas por dois! Boa sorte. Claudia

Sílvia Ester Orrú disse...

Amigos!


Em apenas 20 segundos você ajuda a mudar a vida de milhares de crianças.

Veja o video! https://www.youtube.com/watch?v=5Cgkgll1ky0&feature=youtu.be

Colabore! Assine a petição! NÃO LEVAM 30 SEGUNDOS!!!: http://www.peticaopublica.com.br/psign.aspx?pi=BR84542

COMPARTILHE COM SEUS EMAILS E AMIGOS DAS REDES SOCIAIS PARA TERMOS CADA DIA MAIS COLABORAÇÕES EM ASSINATURAS!

Adoção de crianças russas por brasileiros.

Dia 7 de outubro a AMAI estará entregando pessoalmente ao ministro Pepe Vargas a petição e conversando sobre as possibilidades de acordo bilateral entre Brasil e Rússia para adoção de crianças.

AMAI - facebook: https://www.facebook.com/Ado%C3%A7%C3%A3o-Internacional-266226736883398/timeline/

Site: http://www.adocaointernacional.net/

Sílvia Ester Orrú disse...

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Dia 7 de outubro a AMAI estará entregando pessoalmente ao ministro Pepe Vargas a petição e conversando sobre as possibilidades de acordo bilateral entre Brasil e Rússia para adoção de crianças.

AMAI - facebook: https://www.facebook.com/Ado%C3%A7%C3%A3o-Internacional-266226736883398/timeline/

Site: http://www.adocaointernacional.net/

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