segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

No Brasil, colônias de imigrantes preservam idiomas e tradições quase perdidos nos países de origem



Em novembro de 2010 publiquei o post “Bilinguismo – De volta ao futuro”, no qual descrevo a experiência bilíngue de meu pai, que cresceu numa colônia polonesa no Paraná, onde se falava apenas polonês. Os fundadores da colônia tinham saído da Europa no início do século passado e não tinham mais tido contato com seu país de origem. Consequentemente, ensinaram a seus descendentes nascidos no Brasil o polonês falado na Polônia no início do século 20. Quando visitou a Polôniamais de 70 anos depois da ida desses imigrantes para o Brasil, meu pai percebeu que falava um polonês antigo, cheio de palavras que tinham caído em desuso há muito tempo e não sabia que palavras usar em polonês pra se referir a certas coisas com as quais não tinha tido contato na infância, como por exemplo televisão, computador, etc. 

Os poloneses que interagiram com meu pai durante essa viagem acharam aquilo extraordinário, mas o caso dele não é único. No Brasil, muitas colônias de imigrantes, como aquela onde meu pai cresceu, preservam idiomas e tradições quase perdidos nos países de origem. Isso apesar da proibição de idiomas estrangeiros que prevaleceu no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, que acabou intimidando muitos dos falantes de outras línguas.

Agora, pesquisadores querem saber como esses idiomas e tradições ainda estão vivos quase dois séculos depois do início da imigração do século 19. 

Um artigo publicado nesse final de semana no jornal Folha de S. Paulo conta a história de uma colônia em Colombo, também no Paraná, onde algumas pessoas ainda falam o “vêneto”, dialeto da terra dos pais e avós que quase não existe mais nem na Itália. O artigo também menciona descendentes de alemães do oeste catarinense que usam “zepelin” como sinônimo de avião e “caminhong” para caminhão, algo que não existia na época da imigração. "É uma outra dinâmica: são pequenos municípios, a maioria de cunho rural, onde a mobilidade é muito pequena ... É praticamente aquela língua que chegou ao Brasil em 1824", diz Cristiane Horst, que estuda “hunsriqueano”, um dialeto germânico falado no Brasil. 

As colônias de imigrantes também preservam tradições que muitas vezes se perderam no país de origem. Por exemplo, o costume ucraniano da “pêssanka”, ovos decorados para comemorar a Páscoa, atualmente é mais forte no Brasil do que na Ucrânia. "Tudo foi proibido durante o regime soviético; quem mantinha era em segredo", diz Mirna Voloschen, da Sociedade Ucraniana do Brasil. Brasileiros que estiveram na Ucrânia depois que o país se tornou independente até ajudaram a revitalizar o costume do “pêssanka” lá.

Segundo o antropólogo Paulo Guérios, que estudou a imigração ucraniana no Paraná, os costumes e idiomas só permanecem se ainda fizerem sentido -- e é natural que se mesclem à cultura brasileira.


O artigo da Folha de S. Paulo pode ser acessado aqui



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