Na maioria das famílias de brasileiros que conheço que criaram mais de um filho no exterior, o segundo filho tem menos domínio do português que o primeiro, em muitos casos tendo apenas domínio passivo da língua (veja o post Bilinguismo passivo – Quando a criança se recusa a falar português), ou seja, entende mas não fala português, e os irmãos normalmente falam apenas a língua majoritária entre si.
Claro que, como quase tudo que tem a ver com bilinguismo, aqui não existe uma regra; cada caso é um caso. Conheço pessoas que consideraram a educação bilíngue de um segundo filho muito fácil, dizendo que o filho mais velho foi um dos principais responsáveis pelo ensino do português ao mais novo. Conheço também uma família em que o primeiro filho tem apenas domínio passivo do português, enquanto que o segundo fala um pouco, apesar de estar longe de ser fluente.
No entanto, a realidade é que a chegada do segundo filho pode alterar o sistema linguístico doméstico de uma família de forma que os pais não têm controle total da situação.
O que dizem os pesquisadores
Pesquisas demonstram que os filhos mais velhos e os mais novos têm acesso a experiências de aprendizado linguístico diferentes. Essa diferença está principalmente no fato de filhos mais velhos terem mais oportunidades de interação direta e individual com os pais. Os nascidos subsequentemente têm menos interação direta devido à presença de irmãos mais velhos, geralmente sendo expostos mais a conversações com três ou mais participantes (mãe/pai + filho mais velho + filho mais novo).
Num estudo de famílias imigrantes nos Estados Unidos feito em 1991, Wong Fillmore observou que os filhos mais novos tendiam a ter inglês como língua dominante e a não aprender a língua dos pais. No mesmo ano, um estudo feito por Joshua Fishman, também com famílias imigrantes nos Estados Unidos, concluiu que os primogênitos tendiam a aprender inglês quando entravam na escola, mas os mais novos aprendiam inglês antes de entrar na escola porque o irmão mais velho trazia a língua até eles em casa.
Entre as poucas pesquisas sistemáticas feitas sobre a questão, um estudo conduzido pelo pesquisador Alexandr Jarovinskij em 1995 investigou crianças vivendo na Hungria com mães russas e pais húngaros e demonstrou que a maioria dos primogênitos tinha uma experiência linguística mais intensa e era mais fluente em russo que seus irmãos mais novos. O pesquisador observou que as mães normalmente falavam cara a cara com os primogênitos mas raramente criavam situações que permitiam uma interação separada com os filhos subsequentes. Estes tinham húngaro como língua dominante, e a regra geral era as crianças falarem húngaro entre si.
Em 1998 foi publicado o resultado de um estudo indicando que a ordem de nascimento tem influência na aculturação de crianças japonesas vivendo nos Estados Unidos e que os primogênitos têm maior probabilidade de aprender a ler e falar japonês que os nascidos subsequentemente.
Uma pesquisa feita no Japão por Laurel Diane Kamada estudou durante 6 anos a disparidade no grau de proficiência no bilinguismos de irmãos em 23 famílias e considerou os fatores que contribuiam para tal. A disparidade notada foi a menor proficiência na língua minoritária por parte de irmãos mais novos, em geral resultando em bilinguismo passivo quando, segundo os estudiosos, deveria haver bilinguismo produtivo.
Em 2002 Sarah J. Shin, da University of Maryland, publicou os resultados de uma pesquisa feita com filhos de imigrantes coreanos nos Estados Unidos que também demonstrou essa disparidade e analisou as razões que levavam a ela.
Fatores que causam a disparidade
Segundo os pesquisadores, os principais fatores que influenciam a disparidade na aquisição da língua minoritária pelo segundo ou terceiro filho são:
Disponibilidade e prioridades –
Crianças nascidas subsequentemente recebem menos atenção dos pais que o primogênito. O segundo filho já não é a maior prioridade dos pais como o primogênito geralmente é. A quantidade e a qualidade do tempo que o pai/mãe falante da língua minoritária passa com o segundo filho é menor que com o primeiro. Os pais são mais jovens, têm mais vitalidade e menos responsabilidades quando o primeiro filho nasce, comparado com a época em que o segundo chega. Os primogênitos estão mais expostos à comunicação direta com os pais do que os nascidos depois. A consequência é que os mais velhos passam a ter mais fluência na língua minoritária que os irmãos.
Um ponto interessante é que as pesquisas notaram que alguns pais demonstram uma clara preferência por falar a língua minoritária com o primogênito e a língua majoritária com o segundo ou terceiro filho, e tendem a usar a língua majoritária mais com o segundo ou terceiro filho do que com o primeiro.
Influência do irmão mais velho –
Um outro fator que inibe o aprendizado de uma língua minoritária pelo segundo filho é já haver outra criança em casa desde o seu nascimento. A principal consequência disso é a questão da língua usada entre irmãos.
Os casos em que os filhos se comunicam entre si em português são uma minoria. Muitas vezes o filho mais velho prefere falar na língua majoritária (por exemplo inglês, se moram na Inglaterra) com o irmãozinho, por considerá-la mais importante que o português. Muito vai depender do valor dado pelo filho mais velho ao português (veja o post Crianças bilíngues e o valor das línguas), portanto aqui o papel dos pais em fazer com que o primeiro filho valorize a língua portuguesa tem dupla importância.
Quando o irmão mais velho fala com o mais novo na língua majoritária, diminui as chances do menor de aprender português, pois além de ter menos exposição ao idioma, o mais novo vai achar que a língua falada pelo mais velho é a mais importante das duas, e não vai sentir necessidade de falar português. O segundo filho aprende com o primeiro que inglês, por exemplo, é a língua do poder, e ao mesmo tempo é desencorajado pelo irmão de usar português.
Alexandr Jarovinskij, mencionado acima, notou no seu estudo que filhos mais novos relutavam em falar a língua minoritária porque os irmãos mais velhos, que eram mais proficientes, geralmente criticavam e muitas vezes ridicularizavam o uso incorreto da língua por eles. Isso fazia com que os menores tivessem vergonha de tentar falar a língua minoritária e passassem a usá-la cada vez menos. E quanto menos uma criança usa uma língua, menos chances tem de aprendê-la.
Aulas, grupos de pais, etc –
A influência de esforços conscientes dos pais para ensinar a língua à criança através de exposição a ambientes que propiciam o aprendizado, como escolinhas de português, grupos de pais, etc, diminui muito com o segundo filho. Existem várias razões para isso ocorrer, mas o fato é que na prática na maioria dos casos o primeiro filho acaba tendo mais oportunidades de aprendizado do que o segundo.
Conclusão
É importante que os pais estejam cientes dos problemas que podem vir a ocorrer quando o segundo filho chega, e se preparem para lidar corretamente com a situação, que exige um esforço extra da parte deles. A família deve estar atenta ao fato de que estratégias diferentes podem ser necessárias com relação ao segundo filho. Por exemplo, os pais podem tentar persuadir o filho mais velho a ajudá-los a ensinar o irmãozinho a falar português ao invés de criticá-lo por não ser proficiente. Os pais devem também notar se têm uma tendência a usar a língua majoritária ao invés do português com os filhos mais novos e conscientemente evitar fazê-lo. E se bilinguismo é uma meta para o segundo filho também, a família deve se esforçar para dar a ele acesso às mesmas oportunidades de desenvolvimento linguístico que o primogênito teve – e talvez até mais.















