sexta-feira, 8 de julho de 2011

Bullying social

Muitas vezes filhos de imigrantes ou expatriados têm problemas com bullying na escola, pois crianças que são de alguma forma diferentes dos seus pares são os alvos mais frequentes de intimidações.

Infelizmente, quando uma criança bilíngue sofre bullying em razão de suas raízes internacionais, ou por seu sotaque, ou até mesmo pelo simples fato de falar duas línguas, ela pode ser levada a negar suas origens, e consequentemente seu bilinguismo, para tentar ser igual às outras crianças à sua volta, ou seja, ela pode passar a querer ser 100 por cento monocultural e monolíngue, e se recusar a falar a língua minoritária. Os pais têm que estar muito atentos para lidar com estas e outras possíveis consequências desse tipo de agressão. Efeitos psicológicos negativos podem persistir até muitos anos após a ocorrência do bullying.

Mas o que exatamente é bullying?

Até pouco tempo atrás, a palavra bullying estava ligada a imagens de rapazes mal-humorados, fisicamente agressivos, com problemas sociais e baixa autoestima. Embora este tipo de bullying ainda exista, a realidade é bem mais complicada. Muitos bullies têm habilidades sociais bem desenvolvidas, autoestima elevada, e são mestres em manipular os adultos a fim de parecer inocentes. Muitos deles são meninas.

Bullying pode assumir a forma de agressão física, verbal ou emocional. Um tipo de agressão emocional muito comum é o chamado bullying social ou relacional, que se refere a agressão emocional entre as pessoas nas relações sociais. Ele pode ter muitas formas, mas geralmente envolve o uso de um "grupo" como uma arma para ferir alguém, prejudicando seus relacionamentos e sua reputação.

Apesar de poder ocorrer desde a escola primária até a universidade, bullying social é muito comum entre pré-adolescentes, e é extremamente prejudicial nessa fase, porque enfraquece alguns dos mais importantes objetivos e necessidades pessoais dos jovens: a inclusão social, uma auto-imagem positiva e o desenvolvimento de amizades significativas.

Bullying social é hoje  provavelmente o tipo mais comum de assédio psicológico em escolas, e na maioria das vezes passa despercebido e sem intervenção. Ao invés de agressões físicas, bullying social implica numa série de comportamentos, que podem incluir fofocas e boatos, insultos verbais, exclusão social, manipulação de amizades, linguagem corporal negativa e cyber-bullying. Bullying social é praticado muitas vezes por crianças populares, especialmente as meninas, e o agressor geralmente é recompensado com adulação e maior popularidade.

Fofoca e ostracismo social podem vir bem abaixo na lista de prioridades de educadores que tentam impedir bullying; no entanto, pesquisas indicam que, além dos danos psicológicos potencialmente devastadores para as vítimas, o bullying social está intimamente relacionado a uma cultura de agressividade nas escolas, por isso é importante que educadores tomem medidas contra ele. A escola deve ser uma zona livre de assédio. Potenciais provocadores, vítimas e testemunhas devem aprender a ser assertivos - e não agressivos ou passivos - ao lidar com problemas que eles vivenciam diretamente ou testemunham.

A intervenção por parte de educadores não é fácil, porque a escola não tem que trabalhar apenas com o agressor e a vítima, como geralmente ocorre no caso de agressões físicas, mas tem de considerar  todos os possíveis papéis que as outras crianças podem ter na dinâmica do bullying. Todo o grupo precisa ser envolvido em qualquer tentativa de eliminá-lo. A escola deve educar os alunos para que evitem alimentar a energia do agressor assistindo passivamente, rindo ou espalhando boatos. As crianças devem ser incentivadas a apoiar a vítima, sem encorajar retaliação. Se uma criança é vítima de bullying social e está rodeada de pessoas assistindo, ela não sabe o que essas pessoas estão pensando. Elas podem estar gostando ou se sentindo constrangidas, mas se não dizem nada, parece que todas estão contra a vítima.

Outra razão pela qual educadores precisam ter uma abordagem mais holística é que é muito difícil para adultos identificar efetivamente episódios individuais de intimidação social. O educador normalmente terá que se basear em relatos de vítimas, e por uma variedade de razões crianças relutam em definir-se como vítimas.
 
Especialistas recomendam que escolas considerem as seguintes estratégias para lidar com bullying social:

- Educar os professores e funcionários da escola para que saibam o que é bullying social, e discutir formas de combatê-lo.

- Observar os alunos em sala de aula e nos intervalos. Observar sua linguagem corporal quando interagem com seus pares e considerar o seguinte: quem passa mais tempo sozinho ou em um pequeno grupo que parece estar isolado dos outros? Quem é líder de grupinho? Como agem seus seguidores?

- Acreditar na vítima. Jovens socialmente agressivos são muitas vezes hábeis em esconder suas ações, e muitos educadores podem relutar em acreditar que um aluno modelo está envolvido em atos de bullying.

- Dar apoio à vítima e ao agressor, envolvendo os pais e outros profissionais.

- Discutir o bullying social com os alunos, a fim de certificar-se de que eles sabem que espalhar rumores, excluir, ridicularizar os colegas e qualquer forma de assédio moral é inaceitável. É muito importante ter bons canais de comunicação, de modo que os professores possam dar exemplos de tipos de comportamento que sejam preocupantes e fazer as crianças pensarem sobre como suas ações podem magoar os colegas. 

Em um estudo realizado em escolas de Seattle, pesquisadores constataram que o número de episódios de "maledicência" caiu 72 por cento depois que as escolas instituiram um programa que ajuda os professores e os alunos a identificar o bullying social e incentiva testemunhas a ficar do lado das vítimas.

Nao há duvida de que o agente principal na prevenção do bullying é a escola. Se a escola é incapaz de perceber a importância do seu papel, cabe aos pais conscientizá-la da necessidade de se posicionar firmemente contra todas as formas de bullying, inclusive o bullying social, e eliminar a prática através de políticas formais.

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No seu excelente livro “Mentes perigosas nas escolas – Bullying”, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva fornece informaçôes para identificação do bullying, discute seus efeitos e sugere estratégias para combatê-lo. Na entrevista que aparece no vídeo abaixo a autora fala sobre o tema ao programa Sem Censura.



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